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Minha Sogra



 MINHA SOGRA acha que eu quero matá-la. Isso mesmo. Depois de 20 anos de convivência eu virei seu maior pesadelo. Tenho culpa no cartório? Nem no cartório nem em lugar nenhum. Acho. Ela tem 83 anos. Lúcida. Anda na rua sozinha, cozinha, conversa bem sobre qualquer assunto que não seja eu. Encasquetou que eu quero vê-la pelas costas, quiçá, numa sepultura. 

Mania de perseguição ela tem desde mais nova. Era sempre um carro preto que a seguia quando ela estava andando na rua. Era um cara mal encarado que a encarou por muito tempo dentro do ônibus. Era a mulher do pastor que durante o culto ficava olhando muito para ela. Era o vizinho da frente que a espionava através da minúscula abertura entre o portão e a parede.

Diz o médico que é um tipo de esquizofrenia. A pessoa "escolhe" alguém próximo para ser seu alvo. No caso, o escolhido fui eu.  Diz que eu quero expulsá-la de casa mancomunado que estou com a mulher de um de seus  filhos. Outro alvo secundário ou coadjuvante. Eu lhe disse há 23 anos que ela poderia ficar na minha casa até que ela morresse. De graça. Eu construiria um segundo andar para morar com a sua filha com a qual me casaria. E casei. E construí. 

Isso talvez seja reflexo da sua vivência por quase 40 anos com a violência na porta de casa. Durante todo esse tempo moraram em uma favela que tinha dias bons e ruins. Os ruins, claro, os dias de tiroteios. Traficante contra traficante, traficante contra polícia. Tinha uma boca de fumo literalmente ao lado do seu portão. Muitas vezes, soldados do tráfico, garotos que ela conhecia desde pequenos, invadiu sua casa em busca de abrigo fugindo de algum perseguidor, fosse polícia, fosse traficante rival. E o que podiam fazer a não ser abrir a porta? Certa vez um desses abrigados sugeriu sair de casa abraçado com minha esposa fingindo serem namorados para despistar. ISSO NÃO! protestou ela. E não saiu. 

E não é que a polícia bateu na porta, entrou na casa à procura do tal que se escondeu debaixo da cama? Os policias foram nos cômodos da casa mas não sei se por incompetência ou milagre, não achou o meliante. Depois que tudo se acalmou ele pôde sair e ir embora, não sem ouvir antes da minha sogra um "Vai com Deus, muda de vida que Jesus tem um plano pra você". Não sei que fim levou e nem sei se o tal plano se concretizou.

Os dias bons na favela eram os dias sem tiroteio. A favela fervilha: à noite, é todo mundo na rua. Crianças, adolescentes, adultos. Caixas de sons tocando o funk da vez. Muitos pontos de vendas de cachorro quente, açaí, sorvetes. A favela é exemplo da economia da livre iniciativa. Fila para comprar drogas, tudo bem organizado pelos soldados armados do movimento. A primeira vez que entrei lá com minha futura esposa ela me deu a dica: "anda normalmente e não fica encarando". Segui à risca. Sem problemas. Em sua grande maioria, na favela estão  pessoas honestas, trabalhadoras, que apesar de tudo, se agarram a uma  felicidade que talvez seja resistência.

Mas o fato é que agora, ela, minha sogra, pensa que eu quero matá-la e despejá-la da sua (minha) casa. A esposa diz que eu tenho que entender a cabecinha dela. Eu entendo. Acho. Pois ela espalhou pra Deus e o mundo que eu pretendia matá-la. Depois a versão mudou: eu contratei por 20 mil, milicianos para matá-la. Reclamava que eu poderia ter dado os tais 20 mil para ela comprar um casinha e se mudar.

Tudo isso ela diz para minha esposa, não para mim. De mim ela foge feito diabo da cruz. E só mora a uma distância de uma descida de escada. Quando estou limpando o quintal e ela me vê, limita-se a dizer um "bom dia" meio em grunhido, para dentro, cabeça baixa sem me encarar. Eu para relaxar, respondo bem alegre e efusivo "e aí, dona Josefa, tudo bem?". "Graças a Deus, tô comendo, tô andando, tá tudo bem.." é o que ela sempre responde.

Essa paranoia começou quando ela ouviu do seu quarto pessoas na rua dizendo que "ela morava sozinha" e que seria "fácil entrar na casa" - pronto. Ela se identificou com o "ela morava sozinha" e por tabela, chegou à conclusão que era eu que estava por trás da possível invasão. 

Travou as janelas do seu quarto e da sala. À Noite, coloca duas varas de ferro na porta, distribui panelas em volta para numa eventual invasão ela ser acordada pelo barulho.  Saiu do seu quarto e foi dormir na área de serviço. Fez 4 cadeiras de cama. Não adiantou a filha reclamar. Dizia que dormia muito bem ali. Passou quase um mês inteiro dormindo assim até ter coragem de voltar para o quarto.

E sim, no início eu, minha esposa e o cunhado mais chegado conversamos com ela. Tentamos dissuadi-la da ideia que eu estava tramando contra. "Mas eu ouvi"...repetia ela. "Mas a senhora nem sabe se ouviu mesmo e se ouviu, como pode saber que estavam falando da senhora" - tentei argumentar. Em vão. Ela tinha ouvido alto e claro.

É essa minha paga por tê-la tirado do meio da favela e ter levado toda a família para um bairro melhor... 

Em tempos passados, ela me idolatrava. Afinal eu lhe dei uma casa e ainda casei com a filha (não que a filha estivesse encalhada). Meu sogro, que já foi alvo de uma crônica minha aqui, era um amor de pessoa. E sim, me chamava de Edualdo. Se vivo estivesse, certamente estaria repreendendo a esposa com aquela voz manhosa de mineiro-viciado-em-queijo: "mas Zefinha, filhinha, você acha que o Edualdo ia lhe fazer mal"? 

Talvez ela me olhasse desconfiada, de rabo de olho, e repetisse: "Eu ouvi".


                                                                * * * * * * * * * * * * 



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