Cena.
Oswaldo deu a boa notícia ao vizinho Francisco de que o filho tinha sido aceito em uma faculdade inglesa. Ali, na hora, deu parabéns ao vizinho e ao filho. Depois, em casa, rasgou-se em críticas ao sucesso do vizinho, taxando-o de "metido", "soberbo" e "querendo se mostrar".
Por que somos assim? Ou não somos? Não é verdade que o brasileiro, talvez por sua cultura católica romana ainda muito presente, tem ojeriza ao sucesso, à riqueza? Por que sempre vemos os ricos como "opressores", "exploradores"? Não que não haja os tais, mas a questão é mais profunda...é a nossa visão pequena das coisas. Será porque, outra vez, o catolicismo exalta a pobreza? Fazer voto de pobreza é algo muito católico e visto como o suprassumo da virtude, principalmente entre os franciscanos. Diferente do que aconteceu nos EUA de cultura protestante, que via no sucesso financeiro, um sinal de que Deus estava presente na vida da pessoa.
Outro aspecto do mesmo problema foi levantado pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Após a derrota do Brasil na copa de 50 em pleno estádio do Maracanã diante do Uruguai, que ficou conhecido como "Maracanazo", argumentou que brasileiro tinha um "complexo de vira-lata". Segundo Nelson, o brasileiro tinha uma tendência a se considerar inferior aos estrangeiros, especialmente aos europeus e americanos.
Escreveu ele: "Por 'complexo de vira-latas' entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo". Com isso, Nelson criticava o pensamento que brasileiro nunca consegue fazer algo tão bom quanto os países ricos. Alguma vez você foi comprar algum eletrônico e preferiu uma marca estrangeira do que uma similar nacional? Eu sempre, confesso. Mas não porque tinha "complexo de vira-latas" mas simplesmente por saber que durante os anos 80 e 90, de mercado fechado e reserva de mercado, o Brasil construiu os piores computadores do mundo, os piores carros e as piores televisões. O ex-presidente Collor, que decretou o fim da reserva de mercado, ao comentar sobre os carros que produzíamos aqui ele mandou: "Nossos carros são carroças".
Não sei se os dois elementos estão relacionados: a ojeriza ao sucesso e o complexo de vira-latas. Talvez sim. Pelo menos, em matéria de futebol, acho que perdemos o tal complexo ao nos sagrarmos campeões mundiais em 1958, 1962 e 1970. Viramos enfim, "o país do futebol". Como dizia a famosa cantiga:
A taça do mundo é nossa
Com brasileiro, não há quem possa
Eh, eta, esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro
(...)
O Brasileiro lá no estrangeiro
Mostrou o futebol como é que é
Ganhou a taça do mundo
Sambando com a bola no pé..
E ainda para sacramentar mais ainda nosso orgulho futebolístico, ganhamos em 1994 e 2002 e já estamos sentindo falta de levantar mais um caneco, pois já faz uns bons anos que o nosso futebol parece ter entrado em estado de letargia criativa. Já não nos empolgamos mais com a Copa como fazíamos antes. Vejo poucas ruas enfeitadas como outrora. Será que o espírito do Maracanazo nos pegou outra vez, Nelson?
O discurso que o empresário é o inimigo a ser combatido faz parte da nossa esquerda política. Daquela que odeia o capitalismo e vai tirar férias em Nova Iorque... Há alguns anos, uma amiga minha socialista, ficou horrorizada quando eu disse que na escola do meu filho (à época com 10 anos) tinha uma matéria chamada "empreendedorismo" - para ela, uma imposição da escola burguesa para formar gente que pensa em empreender e pensa em ser bem sucedido sem ter consciência de classe - o que seria um crime para ela. Proletário precisa continuar sempre proletário, jamais almejar ser um capitalista opressor, até que a revolução venha, corte as cabeças de banqueiros, empresários, líderes religiosos, e que tudo seja igualmente dividido entre os trabalhadores e enfim, viveremos em um mundo sem classes sociais.
Ao que tudo indica, pelos resultados das urnas apuradas desde ontem, esse pensamento que faz parte de muita gente que orbita o governo do PT está em franca decadência.
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