sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O Impacto de João Gilberto

 Rio de Janeiro, 1957 


Nelson Mota

Eu não gostava de música. Só as de carnaval, nas chanchadas da Atlântida. O rádio era para futebol e programas humorísticos. Com 13 anos, meus maiores interesses eram literários, esportivos e sexuais. A música, pelo menos a que se ouvia no rádio e nos discos, era insuportável para um adolescente de Copacabana no final dos anos 50. Boleros e sambas-canções falavam de encontros e desencontros amorosos infinitamente distantes de nossas vidas de praia e cinema, de livros e quadrinhos, de início da televisão e da ânsia de modernização. Para nós, garotos de classe média de Copacabana, aqueles cantores da Rádio Nacional e suas grandes vozes, dizendo coisas que não nos interessavam em uma linguagem que não entendíamos, eram abomináveis. 

Gostávamos mesmo era de praia e futebol, de ver Pelé e Garrincha no Maracanã, dos folhetins de Nelson Rodrigues na Última Hora, das gostosonas da coluna de Stanislaw Ponte Preta, das crônicas de Antonio Maria sobre as noites cariocas, de pegar onda de peito no Arpoador, de romances de aventura e de comédias italianas. E de corridas de cavalos: meu grande ídolo era o jóquei Luiz Rigoni. Apostava — e perdia — no Jockey Club e nos bookmakers até o dinheiro que minha mãe me dava para o lanche no Colégio Santo Inácio. 

Com 14 anos comecei a nadar todos os dias de manhã nos infanto-juvenis do Fluminense e abandonei meu primeiro vício. Mas naquelas férias de 1958, em São Paulo, não só comecei a fumar como ouvi num rádio de pilha Spica — a nova sensação tecnológica, novidade absoluta recém-chegada ao Brasil — João Gilberto cantando, “Chega de saudade”. Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido, fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas quanto mais ouvia, mais gostava. Na volta ao Rio comprei o disco, comi a cozinheira e abandonei a natação.


In, Noites Tropicais, de Nelson Motta.


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Eu tive sensações parecidas às do Nelson Motta quando ouvi João Gilberto pela primeira vez. Aquilo era diferente mesmo de tudo o que eu já tinha ouvido, mesmo porque, nunca tinha ouvido nada da Bossa Nova. Era suave demais, faltava um pouco de ânimo, era quase um cantar esquálido....todavia, de uma beleza diferente, cativante. Eu não abandonei a natação nem comi a empregada, mas comprei todos os discos do João Gilberto que eu pude comprar.




segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Ojeriza ao Sucesso

 

Cena. 

Oswaldo deu a boa notícia ao vizinho Francisco de que o filho tinha sido aceito em uma faculdade inglesa. Ali, na hora, deu parabéns ao vizinho e ao filho. Depois, em casa, rasgou-se em críticas ao sucesso do vizinho, taxando-o de "metido", "soberbo" e "querendo se mostrar".

Por que somos assim? Ou não somos? Não é verdade que o brasileiro, talvez por sua cultura católica romana ainda muito presente, tem ojeriza ao sucesso, à riqueza? Por que sempre vemos os ricos como "opressores", "exploradores"? Não que não haja os tais, mas a questão é mais profunda...é a nossa visão pequena das coisas. Será porque, outra vez, o catolicismo exalta a pobreza? Fazer voto de pobreza é algo muito católico e visto como o suprassumo da virtude, principalmente entre os franciscanos. Diferente do que aconteceu nos EUA de cultura protestante, que via no sucesso financeiro, um sinal de que Deus estava presente na vida da pessoa.

Outro aspecto do mesmo problema foi levantado pelo escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues. Após a derrota do Brasil na copa de 50 em pleno estádio do Maracanã diante do Uruguai, que ficou conhecido como "Maracanazo", argumentou que brasileiro tinha um "complexo de vira-lata". Segundo Nelson, o brasileiro tinha uma tendência a se considerar inferior aos estrangeiros, especialmente aos europeus e americanos. 

Escreveu ele: "Por 'complexo de vira-latas' entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo". Com isso, Nelson criticava  o pensamento que brasileiro nunca consegue  fazer algo tão bom quanto os países ricos. Alguma vez você foi comprar algum eletrônico e preferiu uma marca estrangeira do que uma similar nacional? Eu sempre, confesso. Mas não porque tinha "complexo de vira-latas" mas simplesmente por saber que durante os anos 80 e 90, de mercado fechado e reserva de mercado, o Brasil construiu os piores computadores do mundo, os piores carros e as piores televisões. O ex-presidente Collor, que decretou o fim da reserva de mercado, ao comentar sobre os carros que produzíamos aqui ele mandou: "Nossos carros são carroças".

Não sei se os dois elementos estão relacionados: a ojeriza ao sucesso e o complexo de vira-latas. Talvez sim. Pelo menos, em matéria de futebol, acho que perdemos o tal complexo ao nos sagrarmos campeões mundiais em 1958, 1962 e 1970. Viramos enfim, "o país do futebol". Como dizia a famosa cantiga:

A taça do mundo é nossa

Com brasileiro, não há quem possa

Eh, eta, esquadrão de ouro

É bom no samba, é bom no couro 

(...)

O Brasileiro lá no estrangeiro

Mostrou o futebol como é que é

Ganhou a taça do mundo

Sambando com a bola no pé..

E ainda para sacramentar mais ainda nosso orgulho futebolístico, ganhamos em 1994 e 2002 e já estamos sentindo falta de levantar mais um caneco, pois já faz uns bons anos que o nosso futebol parece ter entrado em estado de letargia criativa. Já não nos empolgamos mais com a Copa como fazíamos antes. Vejo poucas ruas enfeitadas como outrora. Será que o espírito do Maracanazo nos pegou outra vez, Nelson?

O discurso que o empresário é o inimigo a ser combatido faz parte da nossa esquerda política. Daquela que odeia o capitalismo e vai tirar férias em Nova Iorque... Há alguns anos, uma amiga minha socialista, ficou horrorizada quando eu disse que na escola do meu filho (à época com 10 anos) tinha uma matéria chamada "empreendedorismo" - para ela, uma imposição da escola burguesa para formar gente que pensa em empreender e pensa em ser bem sucedido sem ter consciência de classe - o que seria um crime para ela. Proletário precisa continuar sempre proletário, jamais almejar ser um capitalista opressor, até que a revolução venha, corte as cabeças de banqueiros, empresários, líderes religiosos, e que tudo seja igualmente dividido entre os trabalhadores e enfim, viveremos em um mundo sem classes sociais. 

Ao que tudo indica, pelos resultados das urnas apuradas desde ontem, esse pensamento que faz parte de muita gente que orbita o governo do PT está em franca decadência. 










O Impacto de João Gilberto

 Rio de Janeiro, 1957  Nelson Mota Eu não gostava de música. Só as de carnaval, nas chanchadas da Atlântida. O rádio era para futebol e prog...