quinta-feira, 28 de maio de 2026

Entrega Em Domicílio


HOJE RECEBO A VISITA DE UM CRONISTA DE VERDADE, o saudoso Luís Fernando Veríssimo, falecido em 30 de agosto de 2025. E pra arrematar, uma palhinha do que tenho publicado (na verdade mais "arquivado" no blog Insolitosz)


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Não sei quando será, mas não deve demorar. O lugar? Qualquer grande cidade brasileira. Noite. É cedo, mas não se veem carros nas ruas nem gente nas calçadas. Só o que se vê são motociclistas. Suas motocicletas têm caixas atrás, para carregar os pedidos. São entregadores. Motoboys. Teleboys. Eles se cruzam nas ruas vazias, em disparada. Como os carros não saem mais à noite, e os motociclistas não os respeitam mesmo, os faróis semafóricos não funcionam. O amarelo fica piscando a noite inteira, e nos cruzamentos a preferência é dos entregadores mais corajosos. Há várias batidas e pelo menos um morto por noite. Mas o número de motociclistas nas ruas não para de crescer. A população não sai mais de casa. Tudo é pedido pelo telefone. 

Os restaurantes despediram seus garçons e trocaram por motoboys. Telegarçons. Se você quiser um jantar fino à luz de velas, com vários pratos, sobremesa e vinho, existem serviços de entrega para tudo. Um entrega os pratos finos. Outro a sobremesa. Outro os vinhos. Outro a toalha de linho, os talheres e as flores. E já há um de televelas. 

Como as pessoas não saem à noite e ninguém mais vai jantar na casa de ninguém, há uma cooperativa que se prontifica a mandar os próprios teleboys como convidados a jantares finos. A Telenós. Você especifica o tipo de conversa que quer à mesa — mais ou menos intelectual, divertida, safada, política, variada etc. — e na hora marcada chegam os telecomensais, no número e com o traje que você quiser. Eles comem, conversam, elogiam os anfitriões e vão embora ou, por um adicional, limpam a cozinha. Como a sociedade passou a depender deles para tudo, é natural que comece a haver distorções criminosas no mundo da entrega em domicílio e teleboys se aproveitem do seu poder para aterrorizar a população. 

Você abre a porta para o entregador de pizza com a mozarela pequena que pediu e de repente se vê acossado por um bando de dez, cada um com uma caixa de supercalabresa que você é obrigado a pagar, e ainda dar gorjeta. Não adianta você telefonar para a polícia. A polícia também não sai mais na rua. Existe um serviço de telessocorro que fornece ajuda parapolicial, mas eles não agem contra teleboys. O corporativismo da classe é forte. 

Os motoboys dominam a noite e desenvolveram uma cultura própria. Têm seu folclore, seus mitos, seus heróis. Como “Fast Boy” Menezes, que entrega sorvete na mão em qualquer ponto da cidade e você não paga pela parte que derreter. Ou Jorge “Armário” Freitas, que adaptou sua moto para carregar qualquer coisa, bateu seu próprio recorde entregando um piano de cauda numa recepção improvisada — com o banquinho e o pianista — e morreu numa freada brusca, esmagado pela jacuzzi portátil que levava para uma festa gay. Não sei quando será, mas não deve demorar. 


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Post scriptum: Coisas insólitas que estou publicando no https://insolitozs.blogspot.com/


Nosso presidente degustando uma paca.



Nossa deputada que lê muito, fala bem e pede a destruição do "statuscós"

 



Entrega Em Domicílio

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