sábado, 25 de julho de 2026

Escritores e Leitores

 


Estou lendo o livro "A Bíblia do Escritor" de Alexandre Lobão. No prefácio, o escritor  Felipe Pena pondera sobre os modos de escrever e a hermeticidade de alguns pretensos escritores "de elite" que determinam o que é ou não é literatura.  Achei interessante sua abordagem sobre o assunto e resolvi publicar aqui. 


"Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura"


_____________________________

"Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado e pretensamente erudito, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade pessoal. 

Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.

 Usei as palavras acima em uma entrevista concedida a um jornal carioca no ano passado, quando fui injusto e deselegante com diversos autores brasileiros de ficção que não se encaixam no perfil descrito. Minha generalização, no entanto, foi retórica, estratégica. Tinha como objetivo levantar a discussão sobre a formação de um público leitor no país e contestar o predomínio de uma parte da crítica acadêmica que ainda vê na anacrônica experimentação e em conceitos ligados aos formalistas russos do início do século passado os valores supremos do texto literário. 

Como disse naquela entrevista, são os doutores universitários (e me incluo na lista) que prejudicam a formação de um público leitor no país. A linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. E isso se reflete na literatura. 

Em recente polêmica envolvendo uma crítica da professora Beatriz Resende ao seu último livro, o escritor João Ximenes Braga desabafou: “Críticos de cinema e música entendem que há espectadores e ouvintes com desejos diversificados. Chegamos aos livros e, danou-se, os acadêmicos e certos críticos que sempre falam em ‘a literatura’ com artigo definido, como se houvesse um único cânone a ser seguido, não fazem cerimônia em dizer que o leitor que não os obedece é burro ou pouco exigente.”

É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito novamente) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao já mencionado experimentalismo linguístico. Isso não significa, no entanto, que não sejam boa literatura. Pelo contrário, alguns são obras de arte de relevante valor. Só não são acessíveis. 

Eu, por exemplo, leio esses autores, mas tenho doutorado em Literatura. Aliás, isso é parte do problema: a academia e uma elite leitora convencionaram que só tem valor aquilo que está na elipse, que força o leitor a encontrar sentido onde poucos conseguem enxergar. Por essa premissa, o que é fácil de ler não tem valor literário. E quem discorda dela é taxado de superficial.

Voltemos, então, à injustiça que cometi. Quero citar alguns autores que defendem o retorno ao compromisso narrativo e não se encaixam no perfil de herméticos. Um deles, o jovem Rodrigo Lacerda, deixou isso claro em entrevista recente a este jornal: “busco uma história bem contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor.” 

A definição de Lacerda é primorosa e, como ele, há diversos escritores brasileiros que enveredam pela mesma estratégia. Fernando Molica, Adriana Lisboa, Tatiana Salem Lévy, Homero Senna, Edney Silvestre, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Livia Garcia-Roza, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues estão entre eles. E me perdoem todos aqueles que não mencionei. Concordo que cada um escreva como pode, como diz o André De Leones. Mas alguns podem mais do que os outros. 

O que proponho não desvalorizar os autores que seguem a verve intelectual da crítica especializada, muito menos desarticular seus grupos de influência que se eternizam em elogios mútuos (e, às vezes, justos) pelos cadernos de cultura do país. O que desejo é apenas abrir espaço para um outro tipo de literatura, cuja proposta de retorno ao compromisso narrativo inclua mais um conceito demonizado pela crítica: o entretenimento.

Acredito que precisamos de livros de ficção que sejam acessíveis a uma parcela maior da população. E isso não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. Escrever fácil é muito difícil, já ensinava o ululante Nélson Rodrigues"


______________________________________________________________________

Felipe Pena é jornalista, psicólogo, romancista e professor da Universidade Federal Fluminense. Autor de 12 livros (entre eles os romances que compõem a Trilogia do Campus) e dezenas de artigos científicos publicados no Brasil e no exterior, é Doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado em semiologia da imagem pela Université de Paris/Sorbonne III. Escreve crônicas pra o Jornal do Brasil, coordena o GP de Teoria do Jornalismo da Intercom e ministra oficina de crônicas na Estação das Letras, no Rio de Janeiro.Foi sub-reitor da UNESA e comentarista da TVEBrasil.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O Sumiço de Deus

 



Olha, fiquei de verdade, comovido com a tua oração. Sabe que a tua queixa de Deus não fazer mais todos aqueles atos poderosos do passado também era uma queixa comum nos grandes profetas que passaram pelo exílio? O “Deus de ontem” sempre será mais presente que o “Deus de agora”. 

Durante a Segunda Guerra, judeus reclamavam com Deus: “Melhor seria jamais ter-nos escolhido como povo de propriedade sua, pois desde então, só sabemos o que é sofrer”.

Emociona essa grito que sai da garganta do que tem fé, grito este, que não encontra uma resposta nítida vindo dos céus. Há uma tese de um escritor judeu de que durante a evolução do texto da bíblia hebraica, Deus vai desaparecendo aos poucos até sumir por completo. 

Aquele Deus do Antigo Testamento foi embora e (ao que parece) , não vai mais voltar. Os cristãos se consolaram ao ver na figura de Jesus, mais uma e definitiva manifestação do Deus hebreu. Melhor para estes que agora, possuem um rosto familiar, humano para Deus. 

Mas o Jesus dos cristãos também não faz mais ninguém andar sobre as águas, então, a história se repete...

Deus retirou-se mas vive ainda na esperança de judeus ultra-ortodoxos com cachinhos pendentes até os ombros, de que o Messias ainda virá! Mas prá que eles ainda querem um messias libertador? Hoje eles são a maior nação em poder militar do Oriente Médio.

Gosto muito de você, viu? E ao contrário do que você disse na Drica (que ora para que os confrades reencontrem Deus em seus corações) posso dizer por mim que do meu ele nunca saiu!

Ainda que da minha cabeça ele tenha sido desconstruído para dar lugar a novas significações dele mesmo.

 É assim o caminho de quem carrega o Mistério no coração e na cabeça, a razão. 


____________________________________

post Scriptum: esse foi um comentário que eu fiz para uma pessoa há uns 15 anos e que infelizmente, não lembro o nome e perdi o contato. Conversávamos sobre como os atos poderosos de Deus na Bíblia não acontecem mais hoje em dia. Talvez esse fosse mesmo o plano Dele. Tipo, "olha tudo o que eu já fiz para vocês crescerem como seres humanos e de nada adiantou...agora, vocês resolvam seus problemas existenciais sem minha presença que eu tenho mais o que fazer". 

Escritores e Leitores

  Estou lendo o livro "A Bíblia do Escritor" de Alexandre Lobão. No prefácio, o escritor  Felipe Pena pondera sobre os modos de es...