quinta-feira, 14 de maio de 2026

VOCÊ É FELIZ?

     




"ESTOU COM 60 ANOS e eu não sei se sou feliz ou não. E veja que estou há 60 anos me observando..." 

(Clóvis de  Barros, professor e filósofo)


      Achei a frase do professor instigante, penetrante, desafiante. E ele não tá certo, não? Como diz outro filósofo, feliz é o relojoeiro que trabalha sozinho. Às vezes penso que felicidade é como pudim de leite. Uma delícia, mas acaba sempre depois que eu como. 

     Li outro dia uns pensamentos sobre a felicidade: Correr atrás da felicidade é como um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Se ele finalmente pegar, não vai saber o que fazer com ele e ainda vai acabar com a boca cheia de pelo. 

    Imagina. A gente corre, corre, corre e...acaba com a boca cheia de pelos? O outro dizia:  "A felicidade é como o horizonte: você caminha dez passos, ela se afasta dez passos. É um excelente exercício aeróbico, mas um péssimo destino de viagem"

    Nosso grande poeta Vinícius de Moraes nos deixou esta pérola:

A felicidade é como a pluma 

Que o vento vai levando pelo ar

Voa tão leve

Mas tem a vida breve

Precisa que haja vento sem parar...

     Mas então, poetinha, onde há vento que não pare? Um barco à vela em pleno oceano, balançando apenas ao sabor das ondas, pois o vento cismou em descansar.

    O que diria minha poetisa preferida, Cecília?

És precária e veloz, Felicidade

Custas a vir, e, quando vens, não te demoras 

 Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,  e, para te medir, se inventaram as horas 

 Felicidade, és coisa estranha e dolorosa 

Fizeste para sempre a vida ficar triste:  porque um dia se vê que as horas todas passam, 

E um tempo, despovoado e profundo, persiste.

     O filósofo romeno Emil Cioran tinha um profundo pessimismo diante da vida. Para ele, a felicidade não passava de uma ilusão, pois quem tem uma profunda lucidez do mundo, sabe que ele é incompatível com o contentamento. Cioran pensava que tentar construir felicidade baseada no sacrifício alheio é uma forma de infelicidade e argumentava que as ações humanas são movidas por uma "ilusão de plenitude no vazio" e que a vida inevitavelmente frustra as expectativas. E não frusta?

     Frases suas impactantes: 

"Não nascer é, sem dúvida, o melhor plano de todos."

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!"

"O que me dá a ilusão de jamais ter sido um iludido é que nunca amei nada sem ao mesmo tempo odiá-lo."

     Talvez você diga: Cioran era um exacerbado pessimista. Pode ter sido. Mas como ainda conseguimos dormir em paz  ao saber dos males do mundo? E dos nossos próprios males? Ou na verdade, nosso sono é sono que não revigora?

   Não é verdade que a felicidade se tornou um produto a ser adquirido em alguma loja de departamentos? Seria muito dizer que vivemos hoje em uma "ditadura da felicidade"? Todos são felizes nas redes sociais...

     E aí me vem à lembrança os versos da música "A Flor e o Espinho" do grande Nelson Cavaquinho na voz da grande Elizeth Cardoso.

Tire o seu sorriso do caminho

Que eu quero passar com a minha dor ...

    Não deveríamos ter vergonha de admitir que estamos sempre correndo atrás da tal felicidade mas somos corredores amadores e ela, atleta de maratona.

   Vamos tentar buscar um equilíbrio com os estoicos. Para Sêneca, a felicidade não depende do que acontece com você, mas de como você interpreta o que acontece. Ser feliz é manter a paz interior independentemente das tempestades externas. É entender que temos controle sobre nossos pensamentos, mesmo quando não temos sobre o mundo.

Feliz mesmo então era era o Zé Amparo que quando dava uma topada bem com o dedo mindinho do pé  abria um sorriso e dizia "Ah, que alegria!"


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Post Scriptum. Para equilibrar todo essa infelicidade, confesso que me considero uma pessoa feliz. Até não ser mais. E até ser de novo...

E vamos ouvir outra vez esse clássico? 



VOCÊ É FELIZ?

       " ESTOU COM 60 ANOS e eu não sei se sou feliz ou não. E veja que estou há 60 anos me observando..."  (Clóvis de  Barros, pr...