quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Em busca da inteligência perdida

 



O blogueiro-desenhista-cronista-poeta-apaixonado Jotabe publicou esse quadro no seu blog e achei o conteúdo tão provocativo que nem comentei, só disse que ia escrever alguma coisinha sobre ele. Eu já tinha visto o quadrinho por aí e conhecia um pouco do pensamento antirreligioso do Russel . 
Aqui estou-me. Devo dizer que este texto será longo, então, esteja avisado. Se o assunto não lhe seduz, nem interessa, já pode parar de ler aqui pra não perder seu tempo. Viu como sou um cronista que zelo pelo tempo dos  leitores?
O filósofo, lógico e matemático britânico Bertrand Russell (1872–1970) foi um dos críticos mais proeminentes, articulados e influentes do cristianismo e da religião organizada no século XX. Ele se definia filosoficamente como um agnóstico (pois considerava impossível provar a existência ou a não existência de Deus), mas afirmava que, na prática cotidiana, agia como um ateu, pois considerava a hipótese cristã altamente improvável. 
Eu respeito o agnóstico. Ele não tem o sentimento religioso aflorado de um devoto mas é tão racional que sabe que o posicionamento ateu é ilógico - pois não se pode dizer que "não existe Deus" já que ninguém nunca conseguiu fuçar todos os cantinhos do universo, logo é mesmo impossível tanto provar que Deus exista ou não.  
Russel escreveu um livro que ficou muito conhecido chamado "Por que não sou cristão". Bem, poderia ser "Por que não sou muçulmano", ou "hinduísta", etc, mas ele mirou o cristianismo porque, creio eu, é a religião da maioria dos ocidentais.
No livro, Russel tentou (e na minha opinião, conseguiu em grande parte), refutar os principais argumentos teológicos cristãos. Russel usou da sua lógica para refutar por exemplo, o argumento teológico da "causa primeira":
O argumento que diz que tudo no universo tem uma causa, logo o universo deve ter uma causa primeira, que seria Deus. Usando da pura lógica, rebateu dizendo que se tudo precisa de uma causa, então Deus também precisaria de uma. Logo, se algo pode existir sem causa, porque esse algo não é o próprio universo, que está aí visível para quem quiser contemplar, diferente de Deus?
Aqui só há um problema: atualmente a teoria mais aceita no meio científico é a do Big Bang, ou seja, que o universo teve um início e não é eterno - ponto para as narrativas de criação bíblicas do universo. (só faltaria para o teólogo provar racionalmente como Deus pode ser eterno).
Outro argumento teológico refutado por Russel foi o do Design (ou ordem natural)
Diz que o universo é tão bem ordenado que deve ter tido um designer inteligente. Aqui Russel foi superficial, (em minha modesta opinião), dizendo que se o mundo foi feito por um ser onipotente e onisciente, o resultado final (um mundo que vive em guerra, cheio de doenças e sofrimento), não seria tão perfeito e ordenado assim.
A definição teológica de que Deus é "onisciente" (tudo sabe, passado, presente, futuro) é a bem da verdade, a mais aceita, porém, há os teólogos evolucionistas, que defendem que Deus não é onisciente, já que Ele, como tudo o que criou, está sempre evoluindo. Logo, se até Deus evoluiu, ele ainda está no "processo" de se tornar algo maior do que ele é hoje. Por isso essa ideia é chamada de "teologia do processo".
Russel também ignora a questão teológica do livre-arbítrio, já que segundo o pensamento cristão, Deus deu a Terra aos homens para eles dela cuidarem livremente. Foi uma questão de escolha divina. Não criar nada ou criar tudo e deixar que suas criaturas mesmo imperfeitas pelo livre-arbítrio, viessem um dia a ter completa redenção.
Russel também fez críticas à figura de Jesus Cristo, mesmo admitindo que ele tivesse algumas virtudes morais elevadas como o ensinamento de "oferecer a outra face". Apesar disso, não o considerava o homem mais sábio ou o melhor da história.
Russel argumentou que um homem perfeito e sábio, não ensinaria a ideia da punição eterna no fogo do inferno. Alguém que tivesse compaixão profunda - como se diz que Jesus tinha - não acreditaria em tal punição.
Concordo com Russel. A doutrina da condenação eterna tem críticos dentro da própria teologia cristã. Muitos teólogos interpretaram a condenação eterna em outros termos do que a ideia simplista (e cruel) de que seres humanos estariam eternamente sofrendo as agruras de um tormento eterno enquanto outros estariam gozando de um felicidade eterna.
Até mesmo os ensinamentos de Jesus sobre essa questão são entendidos de formas diferentes. Eu mesmo, não acredito que Jesus ensinou um tormento eterno para os infiéis, porém, não vou desenvolver o assunto para não alongar ainda mais este texto.
Russel também argumentou que Jesus cometeu erros de previsão. Ele destaca que as passagens dos evangelhos que sugerem que sua segunda vinda ocorreria ainda na geração dos seus ouvintes contemporâneos provam que Jesus se equivocou. 
A passagem citada por Russel é Mateus 24.34: "em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam". A passagem tem paralelos em Marcos 13.30 e Lucas 21.32. O Evangelho de João não cita essa passagem.
Há uma outra passagem que é até mais enfática do que esta: 
"Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do Homem no seu reino." (Mateus 16:28, Marcos 9:1, Lucas 9:27).
Em seu julgamento, Jesus teria dito ao sacerdote Caifás:  "Digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do Homem assentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu. (Mateus 26.64)
De fato, nada do que Jesus disse nessas passagens aconteceu. Isso também seria uma longa discussão. Existem bons argumentos de que Jesus não disse simplesmente e deliberadamente uma mentira, mas há quem defenda que ele se enganou no que acreditava que iria acontecer, ou ainda, essas passagens não teriam sido ditas por Jesus, mas foram construções dos escritores dos Evangelhos e expressavam a expectativa que todo judeu tinha de ter a independência do país de volta e ver seus inimigos derrotados.
Talvez o argumento mais discutível que Russel traz em seu livro seria de que o cristianismo foi um obstáculo ao progresso e à ciência. Essa foi uma ideia criada por críticos do século XIX mas que não é defendida hoje no meio acadêmico. O que a historiografia vê é que houve de fato um estímulo institucional da Igreja à ciência, ainda que tenha havido momentos de tensão. 
Na verdade, historiadores hoje argumentam que a cosmovisão cristã — que via o universo como uma criação racional e ordenada por Deus — forneceu a base intelectual necessária para que a ciência moderna surgisse no Ocidente.
Muitos críticos não levam em conta que a Igreja Católica e ordens religiosas (como os jesuítas) financiaram e abrigaram estudos em astronomia, física e matemática por séculos, criando redes de pesquisa e universidades na Idade Média.
Sem mais alongar nesse quesito, acredito que aqui, Russel se mostrou apenas, preconceituoso no afã de cimentar sua crítica. Mas é aceitável a crítica que ele fazia à moral sexual e social da Igreja, que foi contra o divórcio, ao controle da natalidade e à educação sexual. Concordo que nesses quesitos, a Igreja pecou, mesmo que em tese, ela estivesse apenas defendendo aquilo que acreditava ser certo do ponto de vista doutrinário.
Outro ponto questionável de Russel é que ele dizia que o cristianismo exige uma fé cega, o que atrofiava a capacidade intelectual humana de questionar e investigar o mundo livremente.
Toda fé, seja ela religiosa ou não, é meio cega. Qual a diferença de ter fé que Deus exista e ter fé que você vai acordar amanhã? Em nenhuma das duas opções há certeza absoluta, mas não ter certeza de que vamos acordar amanhã não atrofia de modo algum nossa capacidade intelectual.
Russel também dizia que o cristianismo era baseado no medo. Medo do desconhecido, da morte, do fracasso. Ela dizia que a humanidade deveria encarar o mundo de forma madura, usando a ciência e a inteligência. Ele não estava de todo errado. De fato, por muito tempo o cristianismo tanto católico quanto protestante, usou o medo como meio de manter o devoto fiel. Porém, eu perguntaria se a ciência e a inteligência são capazes de eliminar todo o medo que alguém possa ter. 
Por fim, quero comentar agora sobre a frase que ilustra o quadrinho. 
A frase do quadrinho está um pouco alterada. Literalmente o contexto da frase é este:
Devido à identificação da religião com a virtude, juntamente com o fato de que os homens mais religiosos não são os mais inteligentes, a educação religiosa dá coragem aos estúpidos para resistirem à autoridade dos homens instruídos [...]. Até onde me lembro, não há uma palavra nos Evangelhos em louvor à inteligência; e, neste aspecto, os ministros da religião seguem a autoridade evangélica de forma mais estrita do que em algumas outras coisas. 
A frase é muito boa. Russel era muito bom em tecer boas e venenosas críticas. Diz ele que 
"..o fato de que os homens mais religiosos não são os mais inteligentes,.." 
E aí me pergunto se Russel investigou cada cristão europeu da sua época ou de outra época para afirmar tal coisa assim com tanta certeza. Será que Isaac Newton, talvez o cientista cristão mais conhecido da história pelos seus feitos na física, não era mais inteligente que ninguém? Para mim é evidente que a frase não pode ser provada verdadeira.
Aí ele diz que 
"...Até onde me lembro, não há uma palavra nos Evangelhos em louvor à inteligência.."
E mais uma vez, Russel se engana. Certamente se ele leu a Bíblia em geral e os Evangelhos em particular, ele deixou escapar alguns textos sobre inteligência. 
A Bíblia menciona o uso da inteligência e do entendimento em vários trechos, especialmente nos livros de Provérbios e Êxodo. Um exemplo: 
"Se clamares por conhecimento, e por inteligência alcares a tua voz, se a buscares como a prata...então entenderás o temor do Senhor". (Provérbios 2.3-6)
Êxodo 36 relata que Deus deu "sabedoria, inteligência, habilidade e destreza" a artífices para que eles pudessem projetar o construir o Tabernáculo com exatidão técnica e artística. 
Provérbios 19.8 diz que "O que adquire entendimento ama a sua alma; o que conserva a inteligência achará o bem"
É bom pontuar que nas línguas originais da Bíblia (hebraico no Antigo Testamento e o grego no Novo Testamento) não existe apenas uma palavra para "inteligência". O texto bíblico utiliza vários termos que dividem a capacidade mental em diferentes nuances, como discernimento, habilidade prática, reflexão e intuição. 
Na Bíblia, inteligência e sabedoria possuem significados diferentes. a Inteligência (entendimento) é aquela capacidade de discernir, analisar, separar o certo do errado. Sabedoria seria a habilidade prática de viver de forma excelente, justa, de acordo com a vontade divina. 
Em alguns relatos dos Evangelhos podemos ver Jesus usando sabedoria e inteligência superiores utilizando uma lógica impecável e conhecimento profundo das Escrituras judaicas, tanto quanto, discernimento psicológico para responder aos seus oponentes e guiar os que o seguiam. 
Para tanto, darei só um exemplo:
Em certa ocasião, seus críticos tentaram lhe pegar em uma armadilha política. Perguntaram a Jesus se era "lícito pagar impostos a César ou não"? (Mateus 22.15-22). Se Jesus dissesse "sim", seria visto como um traidor do povo judeus; se dissesse "não", poderia ser preso pelos romanos por rebelião (sedição). Jesus então pede uma moeda e pergunta de quem era a imagem nela. Seus opositores disseram que ela de César. Então Jesus profere sua famosa frase: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Ele saiu da armadilha sem precisar se posicionar politicamente contra Roma (apesar de ser) e ao mesmo tempo, lembrou-lhes que o ser humano carrega a imagem de Deus em si e a Ele pertence.
Se você chegou até aqui, saiba que esse assunto daria muito mais panos para muitas mangas, mas é inteligente não cansar ainda mais os que se aventuraram na leitura. Em resumo, em minha opinião, Russel estava certo em algumas das suas críticas, e errado em outras. 
E se você tiver curiosidade e me perguntar qual é a minha posição diante de Deus ou do cristianismo, com total sabedoria e inteligência, eu iria pela tangente, dizendo que eu sou um cristão agnóstico. 
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Em busca da inteligência perdida

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