domingo, 18 de outubro de 2026

Reclame Aqui!

 



TODO MUNDO conhece o site Reclame Aqui, onde consumidores insatisfeitos com o atendimento de empresas vão lá expor os capitalistas malvadões. O site conseguiu tal credibilidade que as empresas, pelo menos a maioria delas, fazem questão de ir lá no site responder as reclamações feitas, pois ignorar uma reclamação pública dos seus serviços podem não ser bom para os negócios. 

Pensei no Reclame Aqui quando li em algum  lugar a proposta: Tente viver somente um dia da sua vida sem reclamar de nada. Cá com meus botões, pensei: "mas que merda de proposta é essa"? Ou seja, já comecei reclamando da proposta de não reclamar...

Depois fiquei matutando. Será que eu já passei algum dia sem reclamar de nada? Eu acho que não. A gente reclama de qualquer coisa, desde as irrelevantes até as que de fato merecem ser reclamadas. 

Então fiz um inventário das coisas das quais eu mais reclamo. De deixar panela no fogo e só lembrar quando o cheiro de queimado invade o lugar onde estou na casa. E aí saio correndo xingando a panela ao invés de xingar a mim mesmo, como bom ser humano que sou.

Mesmo porque, há uma lei universal que decretou que se você colocar o leite para ferver e ficar olhando, ele jamais ferve, mas é só você sair da cozinha e sentar no sofá que pronto, lá se foi o leite derramado.

Reclamo do muito frio, reclamo do muito calor; reclamo do filho, reclamo da mulher, reclamo do cachorro que late demais; reclamo do gol perdido no futebol na TV, do final horrível do filme que acabei de assistir; reclamo do livro que peguei pra ler e achei chato e  reclamo por ter terminado um livro que eu gostei muito e que acho que ele deveria ter mais páginas...reclamo do governo. Do senador e do deputado. Do presidente. Reclamo da minha cidade, do meu Estado, da minha região, do meu país. Reclamo dos preços das coisas e do salário que não cresce na mesma proporção. Reclamo até de mim mesmo quando alguém me diz "mas tá reclamando muito, parece velho" como se eu já não fosse um...

Estou me preparando espiritualmente para passar um dia ser reclamar de nada. Não sei se terei sucesso na empreitada. Você, caro leitor, tenho certeza que não reclama de nada.


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DICAS CULTURAIS DO EDU


Quem tiver a assinatura da HBO vale a pena conferir a minissérie DTF St. Louis, aclamada pelo  humor ácido e suspense, lançada em março de 2026. 

A trama se passa no subúrbio de St. Louis, Missouri. O meteorologista de TV Clark Forrest (Jason Bateman) faz amizade com o tradutor de linguagem de sinais Floyd Smernitch (David Harbour). Estagnados em seus casamentos e rotinas, eles começam a usar um aplicativo de encontros casuais extraconjugais chamado DTF St. Louis (sigla adaptada no Brasil para "Diz Que Transa Fácil"). A situação sai do controle quando Clark inicia um caso com a esposa de Floyd, Carol (Linda Cardellini).





sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O Impacto de João Gilberto

 Rio de Janeiro, 1957 


Nelson Mota

Eu não gostava de música. Só as de carnaval, nas chanchadas da Atlântida. O rádio era para futebol e programas humorísticos. Com 13 anos, meus maiores interesses eram literários, esportivos e sexuais. A música, pelo menos a que se ouvia no rádio e nos discos, era insuportável para um adolescente de Copacabana no final dos anos 50. Boleros e sambas-canções falavam de encontros e desencontros amorosos infinitamente distantes de nossas vidas de praia e cinema, de livros e quadrinhos, de início da televisão e da ânsia de modernização. Para nós, garotos de classe média de Copacabana, aqueles cantores da Rádio Nacional e suas grandes vozes, dizendo coisas que não nos interessavam em uma linguagem que não entendíamos, eram abomináveis. 

Gostávamos mesmo era de praia e futebol, de ver Pelé e Garrincha no Maracanã, dos folhetins de Nelson Rodrigues na Última Hora, das gostosonas da coluna de Stanislaw Ponte Preta, das crônicas de Antonio Maria sobre as noites cariocas, de pegar onda de peito no Arpoador, de romances de aventura e de comédias italianas. E de corridas de cavalos: meu grande ídolo era o jóquei Luiz Rigoni. Apostava — e perdia — no Jockey Club e nos bookmakers até o dinheiro que minha mãe me dava para o lanche no Colégio Santo Inácio. 

Com 14 anos comecei a nadar todos os dias de manhã nos infanto-juvenis do Fluminense e abandonei meu primeiro vício. Mas naquelas férias de 1958, em São Paulo, não só comecei a fumar como ouvi num rádio de pilha Spica — a nova sensação tecnológica, novidade absoluta recém-chegada ao Brasil — João Gilberto cantando, “Chega de saudade”. Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido, fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas quanto mais ouvia, mais gostava. Na volta ao Rio comprei o disco, comi a cozinheira e abandonei a natação.


In, Noites Tropicais, de Nelson Motta.


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Eu tive sensações parecidas às do Nelson Motta quando ouvi João Gilberto pela primeira vez. Aquilo era diferente mesmo de tudo o que eu já tinha ouvido, mesmo porque, nunca tinha ouvido nada da Bossa Nova. Era suave demais, faltava um pouco de ânimo, era quase um cantar esquálido....todavia, de uma beleza diferente, cativante. Eu não abandonei a natação nem comi a empregada, mas comprei todos os discos do João Gilberto que eu pude comprar.




Reclame Aqui!

  TODO MUNDO conhece o site Reclame Aqui, onde consumidores insatisfeitos com o atendimento de empresas vão lá expor os capitalistas malva...