sexta-feira, 17 de abril de 2026

Casa de vó

 


Era antiga a casa de vó.

 Era grande como as casas antigas.

 Eu não gostava do banheiro. 

Era pintado de vermelho. 

O chão de cimento gasto. 

Barro se acumulava nas beiradas das paredes. 

Eu olhava aquele barro e me parecia ameaçador. 

Poderia virar um monstro de barro como nos episódios de Ultraman!

Tinha o teto bem alto de telhas de barro como toda casa antiga.

A varanda era enorme. Lugar de reunião de vó, tias, tio, primas, primos e um ou outro chegado. 


Tinha história de pai. Tinha história do tio Zeca. 

Tinha truque de mágica do tio Itaraci - o tio predileto.

 Irmão mais novo de pai. Capoeirista. Judoca. Carateca. 

Habilidade manual em construir brinquedos de madeira para os sobrinhos. 

Me fez uma espingarda que atirava pedrinhas longe. 

Pai tinha uma espingarda de verdade e um revólver. Um facão. 

Pai era caçador dos bons. 


Época de São João na casa de vó era tão bom! 


Tinha curau, tinha milho cozido. Tinha canjica. 

Tinha pamonha. Tinha bolo de milho. Tinha estalinho. 

Tinha fogueira na rua, tinha fogos e cabeça de nego. 

Ai, meu Deus, que saudade dos tempos do São João na casa de vó!


De noite na casa de vó tinha muita brincadeira entre os primos. 

Tinha pique-lata. 

Tinha esconde-esconde. 

Tinha passará (que nós chamávamos de passaralho). 

Tinha vai e vem no balanço de pneu no galho da jaqueira. 

Tinham duas jaqueiras na casa de vó e várias bananeiras. 

Como era grande o quintal da casa de vó! 

Tinha pique-pega. Pique-alto. Pique-ajuda. 

Como a gente corria na casa de vó!


Tinha até namorico escondido com a prima mais bonita!

Ai, meu Deus, que emoção! 


Tem lembranças lindas guardadas em mim dos tempos da Casa de Vó

Que por aqui paro de citar, pois a vontade de tudo reviver é demais

Mesmo sabendo que o tempo - esse inclemente, 

Nunca volta atrás.



sexta-feira, 10 de abril de 2026

Declare Sua Renda

 


A DECLARAÇÃO do Imposto de Renda (que eu sou descontado na fonte mesmo não sendo muito e recebendo parte de volta, mesmo sem ter renda e sim, salário) já foi bem complicada, mas hoje em dia pra quem não é milionário (tem mais de um milhão na conta, bens, investimentos, etc) até que está bem simplificada. Fica até pré preenchida no aplicativo de um ano para o outro. 

Em 1984, Drummond, nosso poeta maior (mas também hábil cronista) escreveu sobre o dito IR com um toque todo especial.


Há escritores que nos ajudam a entender o mundo. Outros, como Carlos Drummond de Andrade, fazem algo mais sutil — e talvez mais difícil: nos ensinam a percebê-lo.  (a frase não é minha mas como discordar?)


Sr. DIRETOR do Imposto de Renda:

O senhor me perdoe se venho molestá-lo. Não é consulta: é caso de consciência: Considerando o formulário para declaração de imposto de renda algo assimilável aos textos em caracteres cuneiformes, sempre me abstive religiosamente de preenchê-lo. Apenas dato e assino, entregando-o, imaculado, a um funcionário benévolo, a quem solicito: “Bote aí o que quiser”. Ele me encara, vê que não sou nenhum tubarão, rabisca uns números razoáveis, faz umas contas, conclui: “É tanto”. Pago, e vivemos in love, o Fisco e eu. Mas este ano ocorreu-me uma dúvida, a primeira até hoje em matéria de renda e de imposto devido. O bom funcionário não soube resolvê-la, ninguém na repartição soube.

Minha dúvida, meu problema, Sr. Diretor, consiste na desconfiança de que sou, tenho sido a vida inteira um sonegador do Imposto de Renda. Involuntário, inconsciente, mas de qualquer forma sonegador. Posso alegar em minha defesa muita coisa: a legislação, embora profusa e até florestal, é omissa ou não explícita; os itens das diferentes cédulas não preveem o caso; o órgão fiscalizador jamais cogitou isso; todo mundo está nas mesmas condições que eu, e ninguém se acusa ou reclama contra si mesmo. Contudo, não me conformo, e venho expor-lhe lealmente as minhas rendas ocultas.

A lei manda cobrar imposto a quem tenha renda igual ou superior a determinada importância; parece claro que só se tributam rendimentos em dinheiro. A seguir, entretanto, a mesma lei declara: “São também contribuintes as pessoas físicas que recebem rendimentos de bens de que tenham a posse, como se lhes pertencessem.” E aqui me vejo enquadrado e faltoso. Tenho a posse de inúmeros bens que não me pertencem e que desfruto copiosamente. Eles me rendem o máximo, e nunca fiz constar de minha declaração tais rendimentos.

Esses bens são: o sol, para começar do alto (só a temporada de praia, neste verão que acabou, foi uma renda fabulosa); a lua, que vista do terraço ou da calçada da Avenida Atlântica, diante do mar, me rendeu milhões de cruzeiros-sonho; as árvores do Passeio Público e do Campo de Santana, que alguém se esqueceu de cortar, a montanha, as crianças brincando no play ground ou a caminho da escola; as mangas, os chocolates comidos contra prescrição médica, um ou outro uísque sorvido com amigos, na calma calmíssima, os versos de três poetas, um francês, um português e um brasileiro; certos prazeres como andar por andar, ver figura em edições de arte, conversar sem sentido e sem cálculo; um filmezinho como Le petit poisson rouge, em que um gato salva o peixe para ser gentil com o canário, indicando um caminho aos senhores da guerra fria; e isso e aquilo e tudo mais de alta rentabilidade… não em espécie.

Estes os meus verdadeiros rendimentos, senhor, salários e dividendos não computados na declaração. Agora estou confortado porque confessei, invente depressa uma rubrica para incluir esses lucros e taxe-me sem piedade. Multe, se for o caso; pagarei feliz. Atenciosas saudações.


__________________________________________________________________

Carlos Drummond de Andrade em Cadeira de balanço: crônica, 15. ed, Rio de Janeiro.

J. Olympio, 1984. pp 35-36.




Casa de vó

  Era antiga a casa de vó.  Era grande como as casas antigas.  Eu não gostava do banheiro.  Era pintado de vermelho.  O chão de cimento gast...