sexta-feira, 10 de abril de 2026

Declare Sua Renda

 


A DECLARAÇÃO do Imposto de Renda (que eu sou descontado na fonte mesmo não sendo muito e recebendo parte de volta, mesmo sem ter renda e sim, salário) já foi bem complicada, mas hoje em dia pra quem não é milionário (tem mais de um milhão na conta, bens, investimentos, etc) até que está bem simplificada. Fica até pré preenchida no aplicativo de um ano para o outro. 

Em 1984, Drummond, nosso poeta maior (mas também hábil cronista) escreveu sobre o dito IR com um toque todo especial.


Há escritores que nos ajudam a entender o mundo. Outros, como Carlos Drummond de Andrade, fazem algo mais sutil — e talvez mais difícil: nos ensinam a percebê-lo.  (a frase não é minha mas como discordar?)


Sr. DIRETOR do Imposto de Renda:

O senhor me perdoe se venho molestá-lo. Não é consulta: é caso de consciência: Considerando o formulário para declaração de imposto de renda algo assimilável aos textos em caracteres cuneiformes, sempre me abstive religiosamente de preenchê-lo. Apenas dato e assino, entregando-o, imaculado, a um funcionário benévolo, a quem solicito: “Bote aí o que quiser”. Ele me encara, vê que não sou nenhum tubarão, rabisca uns números razoáveis, faz umas contas, conclui: “É tanto”. Pago, e vivemos in love, o Fisco e eu. Mas este ano ocorreu-me uma dúvida, a primeira até hoje em matéria de renda e de imposto devido. O bom funcionário não soube resolvê-la, ninguém na repartição soube.

Minha dúvida, meu problema, Sr. Diretor, consiste na desconfiança de que sou, tenho sido a vida inteira um sonegador do Imposto de Renda. Involuntário, inconsciente, mas de qualquer forma sonegador. Posso alegar em minha defesa muita coisa: a legislação, embora profusa e até florestal, é omissa ou não explícita; os itens das diferentes cédulas não preveem o caso; o órgão fiscalizador jamais cogitou isso; todo mundo está nas mesmas condições que eu, e ninguém se acusa ou reclama contra si mesmo. Contudo, não me conformo, e venho expor-lhe lealmente as minhas rendas ocultas.

A lei manda cobrar imposto a quem tenha renda igual ou superior a determinada importância; parece claro que só se tributam rendimentos em dinheiro. A seguir, entretanto, a mesma lei declara: “São também contribuintes as pessoas físicas que recebem rendimentos de bens de que tenham a posse, como se lhes pertencessem.” E aqui me vejo enquadrado e faltoso. Tenho a posse de inúmeros bens que não me pertencem e que desfruto copiosamente. Eles me rendem o máximo, e nunca fiz constar de minha declaração tais rendimentos.

Esses bens são: o sol, para começar do alto (só a temporada de praia, neste verão que acabou, foi uma renda fabulosa); a lua, que vista do terraço ou da calçada da Avenida Atlântica, diante do mar, me rendeu milhões de cruzeiros-sonho; as árvores do Passeio Público e do Campo de Santana, que alguém se esqueceu de cortar, a montanha, as crianças brincando no play ground ou a caminho da escola; as mangas, os chocolates comidos contra prescrição médica, um ou outro uísque sorvido com amigos, na calma calmíssima, os versos de três poetas, um francês, um português e um brasileiro; certos prazeres como andar por andar, ver figura em edições de arte, conversar sem sentido e sem cálculo; um filmezinho como Le petit poisson rouge, em que um gato salva o peixe para ser gentil com o canário, indicando um caminho aos senhores da guerra fria; e isso e aquilo e tudo mais de alta rentabilidade… não em espécie.

Estes os meus verdadeiros rendimentos, senhor, salários e dividendos não computados na declaração. Agora estou confortado porque confessei, invente depressa uma rubrica para incluir esses lucros e taxe-me sem piedade. Multe, se for o caso; pagarei feliz. Atenciosas saudações.


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Carlos Drummond de Andrade em Cadeira de balanço: crônica, 15. ed, Rio de Janeiro.

J. Olympio, 1984. pp 35-36.




domingo, 5 de abril de 2026

PASSAGEM

 





Todos as festas religiosas que temos no Ocidente foram ao longo do tempo, para o bem ou para o mal, dessacralizadas, reformatadas ao gosto do mercado, do comércio, e perderam sua aura reflexiva e devocional. Ficando apenas com as duas maiores festas cristãs - o Natal e a Páscoa - nelas, há muito, seus símbolos originais e significados espirituais foram sendo modificados ao gosto talvez, do tão cultuado "humanismo"- que tirou o sagrado do palco e o fez se esconder na coxia e ao mercado que a tudo transforma em  produto vendável e lucrativo.

Natal já não é sobre o nascimento do Salvador do mundo, do Messias esperado, do Deus encarnado que em ato supremo de amor, a si mesmo se faz carne e se doa à humanidade como sacrifício perfeito que redime e dá nova vida a quem crê(no cristianismo, o conceito de "escolha" é fundamental). Não, o nascimento de Jesus hoje tem como símbolo maior um vovô gordo, nórdico, barba branca que traz presente para todo mundo entrando pela chaminé. 

A Páscoa original é celebração judaica. O "Pessah" é uma das principais festas religiosas e identitária do povo judeu que comemora nela a libertação dos antigos hebreus quando foram escravos no Egito. Pessah, é "passagem" - que evoca a história do Anjo da Morte que "passou" pelas casas dos escravos e porque viram nos umbrais das portas a marca de sangue sacrificial, poupou seus primogênitos, diferentemente dos primogênitos egípcios que foram todos mortos o que levou o Faraó a concordar em deixar o povo hebreu ir embora para Canaã (atual Palestina).

O cristianismo ressignificou a festa judaica e passou a celebrar sua própria "passagem" na figura da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Sua morte e sua vitória sobre a morte, foi a passagem da vida para a morte para quem nele crê.

Hoje a páscoa cristã tem como símbolo um coelhinho fofo que nos traz ovos de chocolate.

Como já dizia a célebre frase, "nada se cria, tudo se transforma". A própria páscoa cristã incorporou elementos de religiões pagãs do Império romano com o tempo. E estamos vendo ao vivo e à cores, uma passagem às avessas no Ocidente cristão. Enquanto a cada dia o Ocidente se descristianiza com templos se tornando boates em lugares da Europa, a política da inclusão acrítica do progressismo europeu está abrindo as portas da sua civilização para milhares de imigrantes islâmicos que não têm nenhum apreço pelos valores ocidentais, como Estado laico, liberdade e diversidade. 

Tenho visto vídeos interessantes dos problemas que esse choque de culturas está produzindo. O único país que vi até agora se preocupar com a laicidade em vista ao avanço do Islã radical é a França. Na Inglaterra, por exemplo, tenho visto casos em que cristãos são proibidos de anunciar a sua fé em praça pública para não "oprimir a comunidade islâmica". Ontem mesmo vi um vídeo em que um muçulmano entra em uma igreja católica no meio da missa, vai até o altar, põe seu tapetinho no chão e começa a fazer suas orações a Alah com a cabeça em direção à Meca. E ai de quem for lá lhe dizer que ele entrou no lugar errado, que ali não é uma mesquita - certamente o discurso progressista taxaria de "intolerância".

A Europa está sendo tolerante com os intolerantes e isso pode ser a ruína do seu modo de vida.

Não estou dizendo de forma alguma que os países de religião islâmica são todos teocracias ditatoriais como Irã e Afeganistão,  mas em muitos deles que possuem um governo civil e tem o Islã como religião de Estado como Egito, Jordânia e Marrocos, mudar de religião pode ser temerário. Por outro lado, a Turquia é um exemplo de país totalmente laico de maioria muçulmana mas que possui liberdade de consciência e de escolhas.

Então, ao mesmo tempo em que o Ocidente esquece seus ritos, seus símbolos, sua devoção, a política progressista inclusiva sem limites abraçada pela Europa, está corroendo todo o tecido social que fizeram da Europa ser a Europa, que foi o tecido judaico-cristão em nome da tolerância com os intolerantes. 

O que estou dizendo vai soar como "extremismo de direita", "fascismo" ou "Xenofobia" para alguns. Mas será que pensar, questionar e problematizar a questão, diante dos inúmeros casos que estão acontecendo, em que imigrantes islâmicos praticam atos de violência gratuito contra europeus cristãos e a Europa cristã acolhe, em nome da diversidade tais atos, é intolerância?

O simpático velhinho de barba branca comeu todos os ovos que o coelhinho fofo trouxe.


Declare Sua Renda

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