Clube de Detetives Pão de Queijo

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Pedra sem poesia

 

UM POEMINHA DE ADÉLIA PRADO que eu recitei e postei no Instagram há um tempo. Tantos significados dentro de uma única estrofe! E não é assim mesmo? Quantas vezes a poesia que nos torna o viver menos efêmero, menos rude, menos concreto nos falta! Olhamos ao redor e só vemos "manchetes de jornais". Nada de elevação. Nada de conseguir olhar para além do óbvio. Para além do ordinário. Para fora de nós mesmos. Nada de ficar de peito aberto diante da infinitude do universo apenas contando estrelas... 

Ó Deus, não nos tire a poesia!! Não nos faça olhar uma pedra e ver somente...pedra!


 






Adélia Prado



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p.s - Instagram, Facebook e youtube são redes onde posto cada vez menos. Na verdade, não posto nada no meu canal do youtube e no Instagram faz mais de um ano ano. 



sexta-feira, 12 de julho de 2024

A VITROLA ALEMÃ

 


MEU PAI ERA MARINHEIRO e  ainda solteiro fez uma viagem à Europa e aos EUA  no navio Custódio de Melo. Era o navio que todo ano fazia uma viagem de instrução para os novos Guarda-Marinhas, futuros oficiais da Marinha. Hoje o Custódio de Melo já está fora de combate, foi aposentado. Fazer parte da tripulação do navio era bem concorrido, já que era uma viagem que todo marinheiro queria fazer. Além de visitar vários países europeus e os Estados Unidos, ainda recebia o soldo em dólar.

Visitando a Alemanha, ele comprou uma vitrola mas ou menos como esta da foto acima. Não tenho a lembrança nítida de como ela era mas sei que era assim, fechava como se fosse uma caixa. Uma das minhas melhores lembranças da infância é ao lado dessa vitrola. Lá pelos meus sete ou oito anos a vitrola alemã já tinha um bom tempo de uso. Já nem tinha tanto destaque assim na casa já que ficava guardada em um quarto onde ninguém dormia. Na nossa sala agora reinava imponente uma radiola da Telefunken(também alemã) parecida com essa aí da foto abaixo. 





MEU PAI GOSTAVA DA ALEMANHA, tanto que deu um nome alemão ao meu irmão mais novo: Vlanger. Se pronuncia "vlanker". 

Voltando à vitrola. Eu criança era atraído de forma irresistível por ela. Não sei como eu aprendi a mexer, acho que sozinho mesmo. Eu pegava os discos do meu pai, colocava no prato da vitrola e de repente se ouvia pela casa...

Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Porque tamanha judiação...

Ou então

Quem é que não sofre por alguém?
Quem é que não chora uma lágrima sentida?
Quem é que não tem um grande amor...? 

Ou então

Velho casarão já quase tapera 
Da grande figueira sombreando o telhado
Se ela falasse contava a história
De quem te plantou há um século passado...

No início minha mãe não queria que eu mexesse na "vitrola do seu pai" mas como eu era teimoso e todo dia me sentava ao lado da vitrola para ouvir os discos, ela acabou cedendo. Acho que percebeu que eu sabia mexer direitinho e que não ia quebrar a vitrola alemã e meu pai também não se importava; como eu disse, o seu novo xodó era a radiola que parecia um móvel que ficava agora na sala.

Eram discos de LUIZ GONZAGA, TEIXEIRINHA, AGNALDO TIMÓTEO, TRIO ARAKITAN...e outros. O meu preferido era Luiz Gonzaga. Cresci gostando, admirando e cantando as músicas do Rei do Baião. Vejo que os discos de vinil e as vitrolas estão voltando ao mercado. Não tem CD, Spotify ou qualquer outra coisa digital que se compare ao clima e ao som de um disco de vinil. 

Não lembro que fim levou a vitrola, deve ter se esgotado pelo uso e pelo tempo. Tempo de um tempo onde tudo era mais feliz para uma criança que gostava de ouvir Gonzaga.













quinta-feira, 4 de julho de 2024

CRÔNICA DA CANNABIS EMPODERADA

 



- E aí, Tonho, viu que o STF liberou a maconha?

- Acho que Vi ...

- Então, agora dá pra comprar 40 gramas da bichinha de boa, sem polícia ficar te perturbando.

Odorico, que estava próximo e ouviu a conversa interpelou:

- Calma lá, Anastácio, não é bem assim..

- Como não?

- O STF resolveu legislar e aprovou que você pode carregar 40 gramas de maconha mas o tráfico continua ilegal e proibido. 

- Ué, então vou  comprar maconha onde? Na farmácia? Lá no bar do Tião?

- Não, tu vai ter que ir na Boca...

- Na Boca? Repetiu Tonho. Na Boca eu não vô, é perigoso...vai que na hora que eu tô lá pinta os poliça?

- Mas então deixa eu vê se entendi, interviu Anastácio: O meu traficante pode me vender 40 gramas, certo, Odorico?

- Bem, sim e não...

- Tonho coçou a cabeça.

- O traficante que te vende maconha ainda está fora da lei, pode pegar cana se for pego.

- Mas se me vender só 40 gramas?

- Aí ...ele deve ser usuário que vende maconha...

- Ué -  coçou a cabeça outra vez Tonho - mas quem vende maconha não é traficante...?

Os três amigos se calaram por um tempo, refletindo se podia ou não podia ir na boca comprar 40 gramas.

- Olha - por fim interviu Odorico - melhor a gente ligar lá pro Moraes para tirar essa dúvida.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

A MAIOR AVENTURA DA MINHA INFÂNCIA

 



VOCÊS DEVEM TER VISTO PELO MENOS UM DOS FILMES DA FRANQUIA "Férias Frustradas". A história de uma família que sai em férias na maior empolgação, principalmente do pai, Clark, vivido pelo ator Chevy Chase, mas que precisam lidar com vários contratempos na viagem até chegar ao seu destino e curtir suas merecidas férias.

A maior aventura da minha infância foi uma viagem de férias com a família. Eu deveria ter uns onze anos. Morávamos em Angra dos Reis e meu pai decidiu que iríamos de carro até Natal, Rio Grande do Norte. Três dias e duas noites de viagem. Eu vibrei. Minha mãe ficou apreensiva. (não lembro das reações, mas durante os anos conversamos muito sobre essa viagem). Meus dois irmãos menores, Vlanger, oito anos e Shirlene, cinco, embarcaram na minha empolgação.

Diogo,  meu pai, tal qual o personagem do filme, era o mais empolgado. Aventura era com ele mesmo. Tinha trocado seu Fuscão por uma imponente Brasília zero quilômetros. Aquele carro para nós, crianças, parecia enorme! Aliás, espaço nunca foi problema para meu pai, um dia ele colocou dez pessoas no seu Fuscão (não me perguntem como) e vinha pisando fundo. Foi até parado pela polícia.  O policial olhou para dentro do carro, pediu os documentos e perguntou: - tá com presa? Meu pai respondeu: - Estou...(nessa hora eu pensei, putamerda, meu pai vai ser preso...). Não foi, mas depois eu conto essa história. 

Meu pai, muito meticuloso, preparou todos os detalhes da viagem. O carro estava ok, não precisava de revisão, estava novinho em folha ainda com aquele cheirinho de carro novo. A maior dificuldade seria levar três crianças em um carro em uma viagem de três dias. Meu pai resolveu isso fazendo uma cama  na parte de trás da Brasília, que era bem largo e cabia bem três crianças magrelas. O soninho estava garantido. 

Meu pai catalogou todas as paradas que fizemos. Era o momento que eu mais gostava. Almoçar nos restaurantes, ficar olhando as lojinhas dos postos e olhando o vai e vem de gente. Antes da viagem ele tinha comprado um gravador, que era um luxo lá em casa. A família toda ficou fascinada por aquele negócio que gravava nossas vozes. INCRÍVEL! Estamos falando aqui da década de 70. Minha mãe, que cantava muito bem, gravou dezenas de músicas naquele aparelho. Meu pai, falante e teatral que era, em cada lugar que parávamos ele ligava o gravador e dizia, imitando uma voz de locutor: - Chegamos às treze e trinta em ....(foram dezenas de cidades), abastecemos com vinte litros de gasolina, e vamos agora almoçar para depois continuar nossa viagem...fala aí Valda (minha mãe falava alguma coisa)...fala aí crianças...(aí era festa, nós três falávamos ao mesmo tempo na maior algazarra).

Não passamos por muitos sufocos na viagem como acontece com a família do filme mas lembro especificamente de um. Meu pai dirigia à noite, já estava cansado e com sono, minha mãe tinha a missão de não deixá-lo dormir, já que falava muito, a todo momento coisas do tipo "Filho, tá muito rápido, vai mais devagar.."; "olha a carreta grande aí na frente, cuidado, cuidado, não passa agora..." Chegava a ser chata mas meu pai não ligava, gostava até. Antes do ocorrido, eu e meus irmãos dormíamos.

 Acordamos com um baque, um freio brusco e uma balançada no carro...

Quando eu abri os olhos, o carro estava parado no acostamento, no meio do nada, um breu que só dava pra enxergar os faróis dos carros quando passavam na direção contrária. Minha mãe muito alterada, agradecia a Deus por alguma coisa; meu pai parecia extático segurando forte o volante. "O que aconteceu, pai"? Perguntei. Quem respondeu foi minha mãe. Meu pai tinha por um segundo, cochilado no volante; o carro deu uma saída para a pista oposta e logo à frente, dois faróis vindo em nossa direção apitando muito...Minha mãe deu um grito! Meu pai despertou. Foi só um nanosegundo para ele abrir os olhos, entender a situação e levar o carro de volta para sua pista num solavanco e indo direto para o acostamento.

Durante anos foi  divertido parar para ficar ouvindo todo o registro que fizemos daquela viagem e minha mãe sempre apontava que fora Deus quem não deixara a família toda morrer naquela noite. Não lembro de quase nada da nossa estadia em Natal, em casa de familiares da minha mãe, mas a viagem em si, foi sem dúvida, minha maior aventura na infância. E não ficou só nessa. Anos depois meu pai fez outra viagem similar na mesma Brasília, agora indo do Rio até Salvador. O registro está aí abaixo. Meus pais, minha irmã e irmão. Eu tirei a foto.





Pedra sem poesia

  UM POEMINHA DE ADÉLIA PRADO que eu recitei e postei no Instagram há um tempo. Tantos significados dentro de uma única estrofe! E não é ass...