Alma e mente se comunicando e ponderando sobre as dores do mundo, que são na verdade, nossas dores. Alma seria o nosso sentimento e a mente a nossa razão? Sentimos a dor e refletimos sobre ela. O mundo está sempre em mudanças (nem sempre para melhor). Tudo evolui, inclusive as sociedades. O que nos deixa pasmos é que depois de tantos milênios de evolução social, ainda tenhamos no mundo tantas diferenças abissais. Não acredito em zero diferenças. Não é possível. Todo ser humano é um universo próprio. Mas certamente, gostaríamos de ver e de ter um mundo menos injusto.
Escrevi o comentário acima no blog do poeta Jaime Portela para seu poema O Mundo Doi-me.
Depois fiquei pensando na expressão "as dores do mundo" e lembrei-me que esse é o título de um dos livros do filósofo Artur Schopenhauer. O livro é considerado uma das obras clássicas da filosofia alemã, abordando reflexões sobre a existência e propondo uma nova forma de pensar sobre a dor e a felicidade.
O principal argumento do filósofo é de que a existência é a própria dor. O mundo como um lugar de expiação. Viver é sofrer. O filósofo chegou à conclusão de que a vida nada mais é do que uma busca incessante por satisfazer desejos que logo após serem satisfeitos, geram novas frustrações e novos desejos. O ciclo dos desejos a serem satisfeitos é infindável e isso é dor. Diz o autor que
O bem, a felicidade, a satisfação são negativos porque não fazem senão suprimir um desejo e terminar um desgosto (...), em geral, achamos as alegrias abaixo da nossa expectativa, ao passo que as dores a excedem sobremaneira...
O núcleo do pensamento de Schopenhauer é a VONTADE. A Vontade é uma FORÇA IRRACIONAL, cega, que nos impulsiona a todo momento todos os seres. Somos manifestação dessa Vontade metafísica e como a Vontade nunca encontra onde repousar, a inevitável consequência é o sofrimento.
Não queremos todos a "felicidade"? Sim, e esse desejo é vão. É uma ilusão, pois nunca existirá felicidade plena, apenas momentos breves de um alívio do sofrimento. A dor, esta sim é real e positiva, o prazer é passageiro, vazio, ilusório.
Isso me fez lembrar de alguns versículos do Eclesiastes (meu livro preferido da Tanak (Antigo Testamento), ao lado do livro de Jó):
É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério! O coração do sábio está na casa onde há luto, mas o dos tolos, na casa da alegria.
(Eclesiastes 7:2-4)
A dor nos faz refletir, a alegria nos faz esquecer que somos pó.
Essa condição nos atinge até mesmo quando não estamos sofrendo, pois constantemente somos tomados pelo tédio. E aí lembrei-me da música do grupo Biquini Cavadão:
Sabe esses dias
Em que horas dizem nada
E você troca o pijama
Preferindo estar na cama...
Sim, sabemos. Todos sabemos.
Sentado no meu quarto
O tempo voa
Lá fora a vida passa
E eu aqui à toa
Eu já tentei de tudo
Mas não tenho remédio
Pra livrar-me desse tédio...
Até mesmo quando não temos plena consciência de que estamos vivendo no tédio das nossas rotinas, ainda assim o tédio está lá e em algum momento ele pulula como uma alergia de pele.
A existência é um pêndulo...ora oscila para o sofrimento, ora oscila para o tédio. A felicidade é uma intrusa.
Schopenhauer faz uma crítica voraz à sociedade, que ele via como superficial e hipócrita. O que tem valor para as pessoas são suas ambições sociais, seus status, ser reconhecido. E isso tudo não passa de doce ilusão que aumenta a infelicidade na proporção direta em que as buscamos.
Por isso, a vida em sociedade intensifica a dor.
Qual o remédio de Schopenhauer para a dor, o sofrimento e o tédio? Valorizar a solidão e o afastamento dos prazeres mundanos. A solidão seria mais saudável, pois conviver diariamente com outras pessoas sempre traz conflitos e frustrações.
Mas o filósofo dá uma saída: A VERDADEIRA PAZ ESTÁ EM REDUZIR OS DESEJOS. Preferir uma forma simples de viver e cultivar a própria interioridade.
Os críticos de Schopenhauer o acusam de ser um "pessimista radical", porém, há algo que o filósofo vê como positivo: A BASE DA MORAL DEVER A COMPAIXÃO. Quando reconhecemos o sofrimento alheio como sendo nosso sofrimento, desenvolvemos empatia.
A compaixão é a forma de aliviar - mas não extinguir - as dores do mundo.
Schopenhauer vê também na arte uma busca de alívio, especialmente a música. Ela teria o poder de suspender temporariamente o domínio da Vontade, e assim, experimentamos uma redução da dor.
Porém, não há como escapar - esse alívio será sempre momentâneo.
Podemos negar a Vontade, reduzindo os desejos, evitando paixões e buscando uma vida mais austera que diminua o sofrimento. Nesse aspecto, o filósofo se aproxima das tradições orientais, com o budismo.
Concluindo, podemos discordar do "pessimismo" de Schopenhauer, mas nunca poderemos negar que ele estava certo ao definir a existência como sofrimento. Já começamos a vida, chorando...as dores do mundo estão aí, a todo momento batendo em nossa porta.
Para finalizar (olha o que teu poema me fez escrever, Jaime!), trago a nossa poetisa Cecília Meirelles para a conversa, pois aparentemente, ela deveria concordar com tudo o que disse o filósofo:
És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
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É claro que você pode negar o pensamento de Schopenhauer e defender o hedonismo, que defende que a busca pelo prazer ou a busca pelo bem-estar deve ser o mote da vida humana. Mas isso pode ser papo para uma outra crônica de filosofia de botequim.
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Ilustração: GPT
Dudualdo.
ResponderExcluirOntem eu fui caminhar e no fone de ouvido coloquei o segundo disco do Hyldon, e uma das musicas é; As dores do mundo.
Eu vou, esquecer de tudo.
Das dores do mundo.
Só quero saber o que fui.
Mas sim quem sou...
Cara, o que estraga o mundo, é a falta de humildade e a falsa impressão que alguns tem, de que são mais importantes do que outros.
Esses caras que se acham melhores, fazem o que o Schopenhauer diz: Correm atrás de satsfazer seus desejos, passando por cima dos outros sem dó... Afinal, os outros são inferiores.
Eu já li algumas coisas do Schopenhauer e ele olha sempre para o lado vazio do copo mesmo. Mas ele explica seus porquês de forma quase convincente.
Baita texto Dudualdo.
Oi, Eduardo! Existir, de fato, é um caminho repleto de desafios, e o sofrimento, em sua essência, serve como um catalisador para a evolução do espírito humano. Se a evolução não fosse parte intrínseca de nossa caninhada, a razão de nossa presença neste mundo se tornaria obscura. A Terra, com suas adversidades e encantos, se revela um ambiente que nos impulsiona a crescer. Se formos sinceros, devemos ponderar: sem as lições que o sofrimento nos proporciona, qual seria o verdadeiro propósito de nossa vinda a este reino terreno? Creio eu que nenhuma, não? Abraço meu amigo!
ResponderExcluiramigo pensador Luciano, sinceramente, não sei qual é o "verdadeiro propósito de nossa vida" aqui neste mundo. Talvez esse grande propósito não exista. Talvez o propósito da vida seja somente existir.
ExcluirPois é meu amigo! É uma possibilidade, não?
ExcluirUm dia você verá que nada existe sem um propósito.
ExcluirEduardo,
ResponderExcluirTeu texto me lembrou que as dores do mundo são, antes de tudo, as dores que cada um carrega por dentro. Schopenhauer chama isso de condição humana esse vaivém entre tédio e sofrimento e, mesmo que discordemos do pessimismo dele, é impossível negar que a vida nos fere enquanto nos ensina.
O que mais me tocou foi a ideia de que a felicidade é breve e a dor, insistente. E talvez por isso a compaixão seja tão necessária: porque alivia o que ninguém consegue curar por completo.
Vivemos correndo atrás do que não existe a tal felicidade plena enquanto esquecemos que o que realmente nos salva são esses instantes simples: uma conversa, uma escuta, uma mesa dividida no café.
A dor nos iguala.
A compaixão nos humaniza.
E teu texto, Eduardo, faz exatamente isso: lembra que pensar o sofrimento já é, de algum modo, suavizá-lo.
Abraço
Fernanda
Oi, Eduardo. Gostei da sua reflexão. Rendeu bastante coisa pra pensar. Nunca tentei alcançar uma felicidade plena, pois não acredito que ela exista nesse plano de existência. Mas admito que por vezes gostaria de prolongar o tempo no qual o fardo parece ser, pelo menos, mais leve.
ResponderExcluirTenha uma boa semana!
Helaina (Escritora || Blogueira)
https://hipercriativa.blogspot.com (Livros, filmes e séries)
https://universo-invisivel.blogspot.com (Contos, crônicas e afins)
Oi, Eduardo, também penso assim.
ResponderExcluirAdorei refletir sobre as dores do mundo, a alegria e a felicidade.
Talvez um dia a terra se transforme num lugar de redenção, conforme a promessa bíblica, mas por enquanto não tenho dúvidas que é um lugar de expiação. Estamos aqui para, através das provações, expiar as nossas faltas, aprender e evoluir. Daí a conclusão de que: "viver é a própria dor". Não acho que Schopenhauer seja pessimista, acho que ele é o filósofo do realismo, isso sim, ele vai a fundo nas filigranas da vida. E essa música também (música antiga, da bossa nova - A Felicidade -) de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Separei esse trechinho, que tem tudo a ver com o que estamos falando aqui: "Tristeza não tem fim // Felicidade, sim // A felicidade é como a pluma // Que o vento vai levando pelo ar // Voa tão leve, mas tem a vida breve // Precisa que haja vento sem parar".
Um texto e tanto, Edu, parabéns.
Bjs, marli
Como não lembrar de Arthur Schopenhauer ao ler uma expressão com "as dores do mundo"?
ResponderExcluirAbraços
Gostei da reflexão, concordo plenamente!
ResponderExcluirBjxxx,
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Bom dia de Paz, amigo Eduardo!
ResponderExcluirSeu texto dá panos para mangas...
"Até mesmo quando não temos plena consciência de que estamos vivendo no tédio das nossas rotinas, ainda assim o tédio está lá e em algum momento ele pulula como uma alergia de pele. "
O parágrafo acima me disse muito...
Os tempos da alma oscilam sim e é ótimo que seja assim.
Seria um tédio permanente... não termos variações.
Fico aqui... não vou entrar nas "mangas"...
Tenha dias abençoados!
Abraços fraternos
Bom dia e boa quinta-feira meu querido amigo Eduardo . Fico com o texto de (Eclesiaste 7:2-4). Grande abraço carioca para outro carioca. Moramos tao perto. Nunca conheci ninguém através do Blogger pessoalmente. Até já conversei por celular e WhatsApp ou fiz chamada de vídeos com duas pessoas da Ásia e lembrei-me de uma senhora do Chile.
ResponderExcluirOlá Edu! Eu gosto de filosofia sempre vejo palestra da professora Lúcia Helena Galvão. Gosto do modo e doa filósofos que ela comenta. Referente a esse filósofo não sabia nada dele até o momento, não posso negar que tem algo ou muita coisa de verdade em seus pensamentos. Eu ainda prefiro Caibalion, viemos para evoluir para sermos melhores como ser humano. O problema que o homem não sabe mais o real significado de ser humano. Não consigo mudar o mundo mas faço a diferença com os meus. Abraços gostei muito da postagem.
ResponderExcluirOlá caro Eduardo Medeiros.
ResponderExcluirGostei da sua crônica.
Seu texto faz um diálogo muito sensível entre a dor do mundo e a nossa própria, mostrando como razão e sentimentos tentam compreender aquilo que nos atravessa. Ao aproximar Schopenhauer, Eclesiastes, música e poesia, você revela que o sofrimento, seja na forma de dor, tédio ou frustração é parte inevitável da existência.
Mas também destaca algo essencial: a compaixão. Mesmo diante do pessimismo do filósofo, você aponta que reconhecer no outro a mesma vulnerabilidade é uma forma real de aliviar, ainda que brevemente, o peso da vida.
O fechamento com Cecília Meirelles reforça essa visão: a felicidade é fugaz, mas a reflexão que nasce da dor pode nos tornar mais humano. Seu comentário não só dialoga com o poema do Jaime, como o expande com beleza e sinceridade.
Boa tarde e bom final de semana.
Não estou em condições de comentar seu texto, apenas digo que de dor emocional hoje eu posso afirmar que entendo.
ResponderExcluirNão faço a menor ideia sobre Schoppenhauer, mas do ínfimo trecho que colocou, a minha compreensão assimilou que a questão não é negar a vontade, ou negar a ação de se satisfazer das vontades, mas, sim, obter consciência de que a maioria das nosssas vontades são fúteis e não nos levam a lugar nenhum, não são realmente necessárias, a não ser para orgulho e vaidade. As pessoas, últimamente, querem se sentir especiais o tempo inteiro e fazem até loucuras para cinco minutos de aceitação. Aí está a questão, segundo a compreensão que obtive, mas eu não posso defender isso, pois você postou meras linhas do cara. Além do mais, esses filósofos são todos meio doidos. Só que eu gostei do que entendi. O ser humano é um perigo para ele mesmo. Ele quer satisfação, ela quer alegria, plenitude, conforto, luxo, mimo, ele quer ser melhor que os outros, ele quer comindar os outros, ele quer viver das benéfices desse domínio. Tenho mais de 40 anos nas costas e um monte de merda na vida, por isso percebo que essas festinhas não passam de um antro de gente que ainda não aceita o próprio fracasso pessoal em alguma coisa, então necessita se autoafirmar dessa maneira. Dá-lhe música alta, bebiba alcóolica, cigarro, drogas em geral, amigos, felicidade é isso. A-ham.
ResponderExcluirbaixa uma versão PDF do livro e dá uma conferida. Falar muito sobre schopenhauer é escrever muito. Para a proposta de uma crônica ficaria exagerado ou extremamente resumido (como fiz neste texto).
Excluirhttps://www.mediafire.com/file/uuraw5l7nbmxm1j/Aa+Dores+do+Mundo+-+shopenhawer.pdf/file
Não conhecia á fundo a filosofia de Schopenhauer mas há grande sabedoria nele, alinhada com ensinamentos de escrituras hindus(da Índia).
ResponderExcluirO prazer desenfreado, estimulado por uma mente descontrolada é fonte de eterna frustração.
Te desejo Boa semana.
O texto é muito bom, Edu, quantas vezes escutei e também perguntei
ResponderExcluirqual é o sentido dessa vida, sempre dor, pouca alegria, esperar mudanças,
e desde que o mundo é mundo, a coisa não engrena, e jamais será diferente.
Pergunte a uma pessoa, que estávamos conversando , qual seria o sentido desta vida?
Ela me disse: Taís, é nascer e morrer!
Entendeu, Edu??? Vá lá que a pessoa tenha razão!!
Filósofos ainda não esclareceram a dúvida...
Vou esperar mais um pouquito... 😄🙏
Na verdade, gostei muito da crônica!
Uma feliz semana!!
Meu abraço.
Vem muito filosófico este seu texto. E logo com Schopenhauer. Apesar do pessimismo do filósofo, a verdade é que ele apontou caminhos e falou das dores do mundo que agora se agravaram imenso com os desmando e a crueldade que se espalhou por todos os cantos. A sua crónica é cheia de lucidez.
ResponderExcluirUma boa semana.
Um beijo.
Fico feliz por o meu penúltimo poema ter despertado em si a abordagem a um tema nada fácil.
ResponderExcluirEu não me inspirei em nenhum filósofo, fui apenas explorando a diferença entre a mente e a alma, sendo que somente a definição de uma e outra já é uma aventura sujeita a variadíssimas opiniões. E que até podem ser uma e a mesma coisa.
E as "dores do mundo" ou o que o mundo nos dói possam ser completamente diferentes. Basta perguntar, por exemplo, aos pares Putin/Zelensky e Trump/Maduro o que pensam acerca disso.
Gostei da sua crónica, embora cada tema nela abordado seja passível de uma diferente interpretação. Mas isso é salutar, é das divergências que a luz se alimenta.
Boa semana caro amigo. Tenha um feliz mês de Dezembro.
Um abraço.
Sim, concordo com você. O que seria da vida sem as dores e as tristezas?
ResponderExcluirBoa semana!
O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!
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Até mais, Emerson Garcia
Olá Eduardo,
ResponderExcluir"A dor é inevitável, mas o sofrimento é opção." Confesso que hoje tento sofrer muito pouco pelas dores causadas. As vezes precisamos juntar os caquinhos e colar com super bonder. Sofrer pra que? Pra mim o sentido da vida é viver tentando ter equilíbrio emocional, espiritual e físico. É fácil? Não, mas não é impossível.
feliz inicio de dezembro onde a fé sempre é renovada,
beijo
Olá Edu! Venho confessar que seu posto instalou um triplex na minha cabeça! Rsrs. ando pensando muito sobre as dores, sobre as minhas dores e como reajo a elas. Abraços.
ResponderExcluirEduardo, suas crônicas esta se aperfeiçoando e ficando cada vez mais complexas, levando-nos a um raciocínio intenso que, em mim, provoca um grande nó, absorvendo toda a minha mente para poder compreender ...E olha que no inicio de dezembro fica ainda mais difícil amigo...
ResponderExcluirMas o que importa é que está divino o seu raciocínio e ainda te digo mais: Concordo totalmente com Schopenhauer quando ele vê na arte uma busca de alívio, especialmente a música. Aí mexeu com meus brios. É na música que estou me refugiando ultimamente. "Ela teria o poder de suspender temporariamente o domínio da Vontade, e assim, experimentamos uma redução da dor." É isso!!!!
Acabei de encontrar a melhor explicação possível para o meu momento!!
Obrigada Eduardo, por tudo!!
Lindo ingresso em dezembro!! :))))