Viúvas, Virgens e Mortos

 



Chico Buarque em "Essa Gente":

Não sou de bater em mulher, nem me dá prazer algum magoar o coração delas. Prefiro as que já vêm magoadas por outro homem; mulheres traídas, por exemplo, mulheres com raiva, a cara quente. Mas nada se compara às esposas que enviúvam ainda jovens e fiéis. Aquelas que se agarram ao caixão fechado, no velório do marido morto em acidente pavoroso. Não posso ver uma foto desses velórios sem pensar em quem será o primeiro a se deitar com a viúva, por quanto tempo ela resistirá, com que confusão de sentimentos se entregará por fim. Mulheres que choram no orgasmo também aprecio. Finjo: está triste?, doeu? Existe mesmo um misterioso elo entre compaixão e perversidade.

                                                                          * * *

Viúvas são personagens interessantes. Na literatura elas são várias. Na nossa dramaturgia novelística, temos a famosa Viúva Porcina. Quem não lembra de Capitu e Dona Flor? Viúvas na literatura simbolizam independência, herança, segredos. Muitas não se adequam à sociedade em que vivem em suas respectivas épocas.

 Bernarda Alba,(A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca) que quando enviuvou impôs um luto rigoroso às cinco filhas por longos oito anos, trancando-as dentro de casa. Outras viúvas ilustres da literatura são: Penólope (A Odisseia, de Homero). Gertrudes (Hamlet, de Shakespeare). Lady Catherine de Bourgh (Orgulho e Preconceito, de Jane Austen). A viúva Douglas (As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain). Madame Schächter (A Noite, de Elie Wiesel).

Nunca me relacionei com uma viúva e espero que minha esposa não tenha que se relacionar com alguém sendo viúva tão cedo! Ao contrário do personagem de Chico Buarque, mas que as viúvas, quem mais me provoca elucubrações literárias são as virgens maduras como Miss Jane Marple (Agatha Christie - O Assassinato na Casa do Pastor e outros), a mais famosa detetive amadora da literatura. Miss Havisham (Charles Dickens - Grandes Esperanças), um dos maiores símbolos de amargura da literatura, ela foi abandonada no altar no dia de seu casamento quando era jovem. Emily Grierson (William Faulkner - Uma Rosa para Emily), controlada rigidamente pelo pai na juventude, Emily é impedida de namorar. 

Temos também homens celibatários que se tornaram ícones da literatura. Diferentes das personagens femininas, eles são movidos por devoção religiosa, idealismo cavalheiresco, obsessão intelectual ou traumas. Pode-se citar Dom Quixote (Miguel de Cervantes - Dom Quixote), o mais famoso cavaleiro andante da literatura vive em completo celibato por escolha e idealismo. Sherlock Holmes (Arthur Conan Doyle - Cânone de Sherlock Holmes), o brilhante detetive da Baker Street escolhe conscientemente o celibato para manter sua mente puramente lógica. Claude Frollo (Victor Hugo - O Corcunda de Notre-Dame), o arquidiácono de Paris é um homem de meia-idade que passou a vida inteira imerso nos livros, na alquimia e no celibato religioso.

A leitura do livro do Chico Buarque me trouxe até aqui, nessa curiosidade em citar personagens viúvas, virgens e celibatários. Uma coisa meio inútil para uma crônica de blogue, eu sei. Amanhã é dia de finados, e aí de quem eu lembrei? Sei que você já sabe de quem...A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, publicado em 1959 por Jorge Amado. Tai um personagem marcante que deu o que falar depois de morto e depois de morto. Quem nunca leu, penitencie-se e vá logo ler. 








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