segunda-feira, 30 de março de 2026

A CARTA

 






O NOSSO CONHECIDO jeitinho do "toma lá dá cá", me parece, começou cedo, antes mesmo de haver Brasil. Serei leviano em dizer que herdamos esse jeitinho que hoje é tão nosso dos  colonizadores portugueses? 

Senão, vejamos.

Todo mundo conhece ou já ouviu falar (mesmo sem ter lido) a famosa carta que Pero Vaz de Caminha escreveu ao Rei D. Manuel I em 1500, informando da recente descoberta (ou invasão para os anticolonialistas), do que é hoje, Porto Seguro, Bahia, Brasil. Como também é sabido (ou não), Pero Vaz era o escrivão da armada portuguesa chefiada pelo famoso Pedro Álvares Cabral, nosso descobridor ou invasor, conforme queiram.  Ele era  responsável por registrar oficialmente os acontecimentos da viagem. Podemos dizer que foi o primeiro cronista que pisou nestas terras abençoadas por Deus. Ele escreveu suas impressões sobre os nativos e sobre a terra que acertadamente, observou que "Nela, em se plantando, tudo dá".

Mas ao final da sua carta, Pero Vaz muda totalmente de assunto e deixa registrado ao Rei um pedido puramente pessoal e familiar: Ele solicita o perdão e o retorno do seu genro, Jorge de Osório, que estava exilado (degredado) na Ilha de São Tomé por ter roubado uma igreja e agredido um clérigo. Será que em troca do trabalho de cronista ele procurou emplacar um favor real de volta? Olha que bom trabalho eu fiz, ó rei Manuel, quebra esse galho pra mim?

O trecho exato diz:

"E pois que Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que receberei em muita mercê." 

Eu acredito que o Rei Manuel pode ter atendido ao pedido de Pero Vaz, mas não há registros históricos para confirmar. Coisas do Destino, o escrivão morreu quando estava em combate na Índia, apenas sete meses após escrever a famosa carta. Parece que o seu genro, Jorge de Osório ficou mofando na cadeia. 



* * * 



18 comentários:

  1. Dissecando a história em pequenos detalhes para uma autópsia do caráter do brasileiro e português com pitadas de humor e ironia, que nos levam à reflexão. E, assim, vamos tirando lições deste roçado e da emaranhada carta de Pero Vaz...
    Um abraço, Eduardo!

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  2. A nossa história é cheia dessas surpresas. Adorei o post.

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!

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    Até mais, Emerson Garcia

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  3. A certidão de batismo do Brasil registrou também a sina de país de trambiqueiros e espertalhões.

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  4. Uma carta é uma forma íntima de comunicação, capaz de transmitir sentimentos, pensamentos e memórias. Escrever ou receber palavras assim fortalece laços, aproxima pessoas e preserva recordações de forma especial.

    Beijinhos,
    Daniela Silva 🩷
    Alma Leve

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  5. Estou a navegar pelos mares de Pero Vaz de Caminha, cantando feliz com meus alunos, por anos, muitos anos a nossa "História" e desenhando o mar com as caravelas, índios espreitando, coqueiros nas laterais e eu orgulhosamente depois os penduravas em varaiszinhos de barbantes pelas paredes e éramos tão angelicais, de verdade mesmo! Quanta história minha, nem lhe conto, mas valeu sua crônica e valeu a lembrança! Santa Semana Santa!

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  6. Afffff...Esses favores chegam de outros tempos então! Adorei a aula de história, bem explicada e pensada. As coisas não são de hooooooooooooje! rs... abraços, linda semana, chica

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  7. Olá Eduardo,
    Se herdamos esse jeitinho dos portugueses, nos aperfeiçoamos em mil por cento
    o toma lá da cá. O que nos envergonha e entristece como brasileiros.
    Desejo uma abençoada semana

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  8. Ah não, era isso o que eu mais temia Edu!!
    Desde a antiquíssima carta de Pelo Vaz, o famigerado "troca, troca" de favores, começou muito antes do que pensávamos.
    Pero Vaz de Caminha escrevia como um poeta, quase como um "Camões," mas tudo com segundas intenções, não passava de uma grande troca de interesses...E assim o Brasil foi colonizado e ficou!!
    E o Brasil é o que é também porque para cá vieram os degredados e bandidos para "colonizar", invadir, o Brasil. Chegaram com o interesse de apenas saquear e impor sua cultura ( Pobre povo originário).
    Uma aula de cultura amigo, gracias!!
    Já antecipo desejos de uma ótima Páscoa! :))))

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  9. Olá Edu, realmente essa carta é famosa... faço minhas as palavras da Adriana (comentário acima) abraços!!!

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  10. Esse favorzinho ao final da carta é célebre. É como se diz: quem não chora... O que me admira é essa caligrafia esmerada, primeiramente; e, segundo; não entendo nada do que está escrito aí.

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    1. Na faculdade de história eu tinha uma matéria que ensina a decifrar esses manuscrito antigos. Muito complicado.

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    2. Educação já era para poucos. E os caras ainda "criptografavam" os escritos... pqp!

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  11. hahaha, cavoucando a gente chega lá...
    Uma postagem de luxo lembrando certas coisas, o também o vergonhoso jeitinho brasileiro etc e tal, que levamos com orgulho do lado esquerdo do peito!
    É, as coisas não são de hoje, vem vindo... nós só estamos aperfeiçoando, dando uma nova roupagem.
    Ah, vá lá, vamos assumir algumas coisas para não ficar feio demais. Vamos carregar certas vergonhas pelo resto da vida. Cruzes!!
    Uma boa semana, Edu, e uma feliz páscoa pra você e sua família!

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  12. Oi, Eduardo! Rapaz como é que se faz pra decifrar essas cartas antigas? Tá explicado porque o brasileiro é desse jeito, né? É herança genética dos portugueses. Um abraço!

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    1. Não é fácil, é preciso muito estudo. A matéria que eu estudei somente um semestre não deu pra fazer muito...rss

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  13. Eduardo esse jeitinho ainda vive com os brasileiros, Eduardo abraços.

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  14. Edu,
    Eu fico lembrando de um amigo
    meu, lá nos anos 90, ele terminou
    o tempo nos Fuzileiros Navais,
    e foi cursar aculdade e Educação
    Física, logo uns meses do 1ºperíodo
    ele me confidenciou a decepção por
    fnalmente descobrir algumas verdades
    sobre a nossa historia aqui...
    Eu que sempre tive minhas próprias
    convicções, disse a ele, esse era
    só o começo das 'verdades'.
    Bjins de ótima semana
    CatiahôAlc.

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Oi. Se leu e gostou,
Obrigado e volte sempre!
Se não gostou, perdoe-me a falta de talento "escriturístico..."

BOBOS DE ABRIL

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