segunda-feira, 4 de maio de 2026

Árvores

 





Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes.

(Carlos Drummond de Andrade)


    PASSEI PARTE DA MINHA pré-adolescência em um condomínio naval que era rodeado por uma área imensa de floresta, montanhas e até uma barragem desativada, pelo qual o condomínio ficou conhecido: "Barragem". Brincar nos matos com os amigos, explorar locais que nunca tínhamos ido, escalar morros, era coisa do dia a dia. Sem celular, sem internet e com a TV lá de casa - uma Telefunken que já era jurássica à época - que mal funcionava, nossa vida era fora de casa. 

     Também  na infância vivi cercado por matas. Nosso quintal lá em Angra dos Reis, no início dos anos 70, dava para uma grande área florestal e era lá que muitas vezes eu ia brincar sozinho com meus 7, 8 anos. A única recomendação da minha mãe era: "Não vai muito longe, fica perto". E eu obedecia. Fui uma criança e adolescente bem obediente  aos pais. Na medida do possível. 

     Em 1970 estreou na TV Tupi a novela "Meu Pé de Laranja Lima",  que viria a ter depois mais duas adaptações em 1980 e 1998, pela TV Band. Novela baseada no romance homônimo de José Mauro de Vasconcelos com atuações marcantes de Cláudio Corrêa e Castro e Eva Wilma. Eu assistia essa novela com minha mãe. Meus primeiros contatos imediatos do terceiro grau com árvores foi por influência dessa novela. Na trama, o menino Zezé tinha uma relação afetuosa com um pé de laranja lima, inclusive a ouvia falar e lhe respondia com a naturalidade que só as crianças que já  conversaram com árvores podem ter. Pois então, também quis eu ter meu pé  de laranja lima. 

     Era uma árvore grande, tronco grosso que ficava a apenas alguns metros depois do  meu quintal. Adotei aquela árvore como minha  amiga. Eu falava com ela. Ela não respondia (pelo menos não  audivelmente), mas ela me respondia na minha imaginação - e isso bastava. E eu me tornei  tão amigo da árvore que muitas vezes passava a manhã toda conversando e só me despedia dela com um abraço, quando minha mãe me chamava.

     Já com  meus  10 anos, morando agora na já citada Barragem em Paripe, Salvador, estreou na TV Globo a novela Sinal de Alerta  em 1978. A novela de Dias  Gomes  abordava  temas ecológicos como poluição ambiental. Se destacaram na novela o ator Paulo  Gracindo e a atriz Yoná Magalhães. Também assisti essa novela junto com minha  mãe - eu e minha mãe éramos noveleiros - e aqueles temas que  a novela  abordava me deixavam preocupado e triste. Afinal, porque se poluía os ares das cidades? Eu vivia ali, naquele santuário verde e não havia poluição. A ideia  de que um dia  a floresta da Barragem pudesse ser  destruída me causava sincera preocupação.

      A novela  Sinal  de Alerta me  tornou um militante ecológico sem eu saber que era um militante. Passei a defender  as florestas, as árvores, os rios... dava palestras para os amigos de  como a preservação da natureza  era importante. Mas  aí, meu pai foi  transferido para  o Rio de Janeiro - fato  que eu odiei - e   fomos morar  agora em uma casa em que não havia florestas por perto. Então, me  desliguei da minha precoce militância  ecológica. Ontem, lendo uma crônica do Drummond - de  onde tirei a frase lá do início - me voltaram essas lembranças. 

        Lembrei também que meu pé de acerola - a única árvore que eu  tinha aqui no meu quintal - tive que cortar pois estava dando muitos insetos que acabavam indo pra casa da minha sogra  e segundo ela, lhes atacavam implacavelmente dia e noite.  Para não deixá-la  tão nervosa, cortei a acerola. 

     E olhando agora para a minha grande varanda (deve ter uns 15 metros de largura), lembrei-me  dos meus planos de enchê-la com  vasos de plantas de ponta a ponta. Plantas que  não  atraiam insetos, pois minha sogra lá de baixo,  voltaria com as mesmas reclamações. Ainda mais agora  (como eu já contei aqui) que ela acredita que a quero expulsar  da casa.

VIVA A NATUREZA...!


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post scriptum: Procurei fotos da  Barragem  atualmente e não achei muita coisa.  Só uma notícia que a Marinha tinha inaugurado mais uns blocos de apartamentos no condomínio. Presumo que  a grande floresta já não seja assim tão grande.


  



3 comentários:

  1. Oi, Edu! Ainda está em tempo de você encher a varanda de plantas. Pra mim quanto mais plantas melhor! Nunca morei perto de uma floresta, mas quando criança nossa casa tinha um quintal enorme cheio de árvores frutíferas e ainda tinha um jardim. Sua sogra deve ser uma figura, viu? Boa semana! :-)

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  2. As árvoires da tua vida ... Que legal essa teu carinho,amor pelas árvores. Isso é TRI LEGAL! E vai colocando, pouco a pouco uns vasinhos na tua varanda! Pena lá na barragem já bem menos árvores ter. O progresso(?) atrapalha!!! Aff... abração, linda semana,chica

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