Gostei muito dos comentários sobre o texto anterior que resolvi continuar com o tema. Tenho lido textos sobre sentimentos e emoções bem interessantes. Lembrei de um amor platônico que tive aos onze anos. E o que que Platão tem a ver com o assunto?
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LÁ PELOS IDOS de 1975 nos mudamos para Paripi, Salvador, BA. Fomos morar em um enorme condomínio de casas e apartamentos da Marinha. Para um menino de 11 anos, aquilo era um mundo fantástico, um paraíso. Rodeado por uma enorme floresta, o condomínio proporcionava para as crianças muitas brincadeiras e o privilégio de ter liberdade com segurança. Afastada das casas e prédios, havia uma antiga barragem desativada que quando chovia forte criava um grande lago onde os mais afoitos iam nadar. Por ter morrido um menino afogado, minha mãe me proibia de ir até lá. Eu obedecia. Por conta disso, até hoje o condomínio é conhecido como "Barragem".
As casas eram construídas de duas em duas, uma ligada à outra por uma mesma parede principal. Sem cercas, sem muros, com grandes quintais gramados. Quando chegamos de mudança, a casa ao lado estava vazia. Ali morava uma família já conhecida do meu pai que estavam viajando de férias. O casal se chamava Alonso e Regina. Tinham dois filhos: o mais novo que todo mundo chamava pelo apelido de Uílio, e tinha ela...Maria, a filha mais velha. Uílio deveria ter a minha idade mas Maria era mais velha.
Corte para a Grécia, época clássica.
Platão foi um dos grandes filósofos gregos, que junto com Sócrates e Aristóteles - a trindade sagrada da filosofia grega - praticamente esgotaram tudo o que se podia pensar ou discutir. Até hoje costuma-se repetir uma frase: "Tá tudo lá em Platão..." (não é bem assim mas a frase é legal).
Os gregos da era mitológica divinizaram fenômenos naturais e sociais. Cada área da existência tinha um deus que reinava sobre ela. Nos mares, Poseidon. Nas profundezas, Hades. Comunicações e viagens, Hermes. Das leis, Temis era soberana (tal qual um certo senhor de Capa Preta do nosso Supremo). E no amor, Eros, muito ligado a Afrodite, também ela deusa do amor e da beleza.
Platão, porém, argumentou que Eros não poderia ser um deus, e sim, um ser intermediário. E por quê?
Para Platão, o amor era uma CARÊNCIA. O homem ama aquilo que não tem. O amor seria uma potência intermediária entre o divino e o humano, um elo de comunicação. Do conceito de CARÊNCIA, criou-se o termo AMOR PLATÔNICO - ou seja - o amor não correspondido ou inalcançável. Ou a ideia de amor espiritual e transcendental.
Carência e desejo formam juntos um coquetel molotov de emoções. Amamos o que desejamos e não temos, o que nos provoca carência. Mas quando conseguimos o desejado, o amor arrefece, o entusiasmo da conquista se acalma, e o desejo e a carência partem para o próximo item desejado - e o círculo carência/desejo-conquista-nova carência/desejo se perpetua.
Corte de volta para a Barragem.
Inspecionando meu novo habitat onde morei por belos e longos 5 anos, percebi que uma das paredes da varanda da casa vizinha estava toda rabiscada de carvão. Algum menino deve ter aproveitado a casa vazia para deixar sua arte registrada.
Quando a família voltou de viagem, minha mãe, que sempre teve uma capacidade incrível de fazer novas amizades, lá estava junto com dona Regina conversando como se fossem velhas amigas sobre a parede rabiscada e o vandalismo inconsequente dos jovens.
Os irmãos se tornaram meus melhores amigos. Eu e Uílio , todos os dias saíamos em busca de aventuras naquele mundaréu de morros, florestas, barragem, montanhas. À noite, ficávamos brincando de vários jogos de tabuleiros e de cartas na varanda de Maria sob um céu espetacularmente estrelado. Jamais vi céu igual.
E Maria era meu céu...linda e maravilhosa no alto dos seus 14 anos, grande para a idade, corpo de menina se transformando em corpo de mulher; alegre, divertida, e minha amiga!!! Muitas vezes passamos horas só conversando sobre tudo o que adolescentes podiam conversar naqueles anos 70.
Jamais pedi um beijo. Jamais deixei aparentar aquela amor que me devorava. Aquela carência. Eu, apesar de ser bem conversador e extrovertido, em matéria de mulheres era tímido igual uma pedra. Quando seu Alonso foi transferido para o Rio, meu mundo caiu.
Durante muito tempo, a figura de Maria povoou meus pensamentos, lembranças e saudades. Um beijo, pelo menos um beijo! Para deixar tudo mais dramático, creio que Maria também tinha uma certa quedinha por mim, mas também jamais tocou no assunto.
Maria foi embora e só voltamos a nos reencontrar mais de uma década depois quando voltamos para o Rio e fomos visitá-los. Relembramos os velhos tempos. A paixão/carência/falta já não existiam, somente a nostalgia dos sentimentos de outrora, ainda mais por saber que ela tinha se casado.
PARECE que Cronos, o deus do tempo, consegue debelar Eros com o passar das horas, dos dias, dos anos e anos...
Bom dia de Paz, Eduardo!
ResponderExcluirVocê descreveu muito bem como alguns homens (quase a maioria pelo que vejo) sentem e agem:
"Quando conseguimos o desejado, o amor arrefece, o entusiasmo da conquista se acalma, e o desejo e a carência partem para o próximo item desejado".
A fila anda para eles com muita facilidade. Somos descartáveis.
Tratam como objeto mesmo. algo imperdoável.
No amor verdadeiro, Eros não tem o poder de debelar. É muito forte e legitimo.
Tive meu amor platônico na adolescência, graças a ele, estudei latim e me foi propício ao vestibular. Foi meu professor particular (amigo da famila). Dançou comigo nos meus quinze anos. Até os dezessete fomos bons amiguinhos.
Afinal, eu não podia namorar e outra me passou a perna, kkk.
Como você, encontrei-o casado anos depois.
Tenha dias abençoados!
Abraços fraternos
.
Rosélia, essa atitude de arrefecer o desejo depois que se tem o objeto desejado não é exclusividade masculina (apesar de quê componentes biológicos possam explicar algumas atitudes) mas é uma característica humana. As mulheres também arrefecem o desejo depois que compram aquele sapato que desejaram por tanto tempo.
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ExcluirEduardo, compreendo ambas defesas.
ExcluirFui na sua lógica do post... na qual tenho visto que é verdadeira demais.
Entretanto, mulheres e homens fúteis agem gualmente como o diz.
Não houvesse mais fidelidade, meu pai e padrinho não teriam vivido casamentos únicos de quase 60.anos ambos, apesar de que felicidade mesmo só teve meu padrinho.
Entendi seu post, é sobre "desejo"satisfeito como criança que logo enjoa do brinquedo ganho.
Muito boa abordagem em base à psicologia.
Suas crônicas são muito bem fundamentadas.
Abraços fraternos de paz e bom descanso
Gostei muito de te ler e pensar no amor platônico que tu e Maria tiveram, mas que só nisso, sen toques, sem nada ficou.Apenas nos bons papos, na presença amiga . E ri aqui, pois nos anos 70 muiiiiiiiito podia ser falado entre os dois,rs...
ResponderExcluirBelo texto, mais uma vez! abração, feliz dias de folia e ou descanso! chica
Esses amores da juventude nos arrebatam mesmo. São inesquecíveis e marcantes. Como é bom amar e ser amado.
ResponderExcluirBoa semana!
O JOVEM JORNALISTA está em HIATUS DE VERÃO do dia 19 de janeiro à 06 de março, mas comentarei nos blogs amigos nesse período. O JJ, portanto, está cheio de posts legais e interessantes. Não deixe de conferir!
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Até mais, Emerson Garcia
Um interessante texto que gostei, Edu
ResponderExcluirBem que podia ter rolado um namorico entre Maria e você...rs
Tenha um excelente carnaval.
Um grande abraço
Verena.
Os amores da juventude, ficam sempre gravados no coração. Quem os não teve?
ResponderExcluirCumprimentos poéticos