Ele tinha oito anos. Chegou dizendo que o amiguinho da sua turma tinha falado "merda". "Pai, que é merda?" - me perguntou. Vi que era hora de uma aulinha particular sobre palavrão. Desculpe se algum pai ou mãe ou avó ler esta crônica e desaprovar totalmente meus métodos de ensino, mas aqui em casa, até agora, ele com quase 16 anos, foi assim: Tête à Tête na total abertura pra se falar de tudo.
Isso porque tenho uma experiência ruim com palavrões na minha pré-adolescência.
Lá em casa as regras sobre certas atitudes eram bem rígidas: Não se pode roubar nada de ninguém. Um dia vindo da escola, eu achei um carrinho largado na rua. Olhei e pensei: "O carrinho tá na rua, eu não tô roubando!". Levei todo feliz o carrinho pra casa como se aquele achado fosse uma grande aventura. Assim que minha mãe me viu perguntou: "Que carrinho é esse?" "Mãe, eu não roubei de ninguém, tava na rua largado...". "Pois então volta e deixa no mesmo lugar, pois o dono do carrinho pode ter esquecido e vai voltar para procurar". Então, meio contrariado, voltei e deixei o carrinho no exato lugar onde tinha encontrado.
Outra regra rígida, cujo descumprimento poderia resultar em punições dolorosas era não falar palavrão nunca. Palavrão era um pecado terrível, dizia minha mãe, evangélica bem conservadora. E era só isso. Era só a proibição. Nada de explicações. Cheguei à pré-adolescência sem entender nada do que os meninos na escola diziam mas que eu sabia que era "nome feio".
Um dia um desafeto meu (gostávamos da mesma menina) me chamou de "viado" - xingamento bem comum nos anos 70 que hoje em dia os viados tomaram para si. Boiei...nem pude replicar porque não sabia do que estava sendo chamado...
Fui aprendendo os significados dos palavrões por deduções, como tudo o mais em relação a sexo, já que em casa falar disso era totalmente tabu. Jamais meu pai veio conversar comigo sobre "conversas de homem", e eu não queria que fosse assim com meu filho.
Voltando ao início, ao me perguntar o que era "merda", vi que meu filho precisa aprender certas palavras que ele poderia ouvir na rua de colegas, digamos, menos educado, ou sem certos limites. Aqui em casa ele nunca me ouviu falar palavrão, já que cresci com o hábito de não dizer nunca (já que era pecado mortal e eu não queria morrer!).
Então fui lhe mostrando os palavrões (que não vou repetir aqui para não perder o mínimo de elegância da crônica) mais usuais e seus significados. E ele foi entendendo. E deixei a regra: Você já sabe o que significa e sabe que é "nome feio" então não é pra ficar repetindo nem dizendo para os amigos. "Sim, pai" , foi a resposta. Esta conversa foi praticamente na mesma época em que ele me perguntou como os bebês vão parar na barriga das mães, e eu, claro, lhe disse como - evidente, de um jeito bem simples que ele pudesse entender. Quem pergunta quer saber.
Até hoje ele não tem hábito de falar palavrão em casa, mas não está proibido de dizer, se for como alguma expressão não dirigida ofensivamente a ninguém, do tipo, "Caramba, Vinícius Júnior é foda"!

Olá, Eduardo!
ResponderExcluirEu nao fui acostumada a dizer também.
Conheço pessoas que se dizem um poço de cultura e a boca é uma m... pra cá e pra lá... fora outros mais "sofisticados ".
Cada um tem seus costumes, paciência...
Palavrão virou normal na boca do povo.
Você faz muito bem em explicar tudo ao seu filho.
Antigamente não era assim e era horrível.
Tenha um final de semana abençoado!
Abraços fraternos
Teu filho está sendo muito bem educado desse jeito e claro, levará pra vida esses princípios...Se os seguirá ou não quando adulto, é outra coisa... E, vamos combinar: há horas que só com um baita ´palavrao podemos expressar o que sentimos,rs... abração,chica
ResponderExcluirHola, Eduardo:
ResponderExcluirEstá claro que crecimos en la misma época y que en ambos hogares regían normas muy similares.
Estoy totalmente a favor de hablar con los niños y explicarles los principios de los buenos modales. En cuanto a lo que hagan con eso cuando crezcan... bueno, esa es otra historia completamente distinta.
Olá Eduardo Medeiros
ResponderExcluirGostei muito da reflexão da crônica. Ela mostra que conversar com os filhos de forma aberta e sincera costuma ensinar muito mais do que apenas proibir. Explicar o significado das coisas e orientar com diálogo ajuda a construir confiança e faz toda a diferença na educação.
Bom final de semana.
Abraço!
Vou aproveitar a resposta que dei a um comentário lá no meu blog: Palavrão é só mais uma palavra da nossa língua. A diferença é que surgiu e está ligado ao sexo, à sexualidade. Talvez por isso não seja de bom tom usá-lo indiscriminadamente. Lembra a linguagem técnica, de uso específico para algum setor. Ou o palavreado religioso, perfeito para uns e inadequado ou ridicularizado por outros.
ResponderExcluirQuando eu era criança não se falava palavrão dentro da casa onde morava. Um dia, quando meu irmão já estava autorizado a sair sozinho pelas proximidades, fui com ele a algum lugar. Ao passar perto de dois meninos que discutiam, ouvimos um deles soltar um “filho da puta!”. Aquilo me mesmerizou, hipnotizou, pois era uma expressão tabu. Virei para meu irmão e disse “você viu o que o Alvinho falou? Ele disse F.P.!!!” Olha que coisa ridícula e hipócrita!, eu nem sonhava saber o significado de “puta”, mas sabia que aquilo era um palavrão. Se eu tivesse ficado calado, tudo bem, mas sempre me lembro e me impressiono com a hipocrisia e a carga de repressão sobre uma criança de sete ou oito anos contidas nesse episódio.
Lembrando-me disso quando nossos filhos foram nascendo, quis tirar a aura de vulgaridade dos palavrões. E liberei seu uso indiscriminadamente. Apenas com a orientação que não fossem ditos perto de pessoas mais velhas que eu.
Hoje falamos livremente, sem nenhum grilo. Algumas das minhas noras são mais recatadas, mas outras falam livremente. E, claro, depende do ambiente onde estamos. Afinal, até a realeza britânica usa!
exatamente! rs
ExcluirOi, Eduardo. Tudo bem? Aqui em casa eu também sempre tive as explicações. Meu pai fala palavrões e minha mãe nunca gostei. Por influência e pra não deixar ela triste também aprendi a evitar. Acabou não virando hábito. Quando quero xingar uso palavras aleatórias pouco faladas ou com uma sonoridade que lembra um palavrão.
ResponderExcluirTenha uma boa semana!
Até breve;
Helaina (Escritora || Blogueira)
https://hipercriativa.blogspot.com (Livros, filmes e séries)
https://universo-invisivel.blogspot.com (Contos, crônicas e afins)
Bom dia, Eduardo
ResponderExcluirÉ muito importante ensinar o significado das coisas aos nossos filhos. Também fui criada sem dizer palavrões e repassei isso aos meus filhos. Lembrei de Efésios 4:29 que diz: "Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem." Um forte abraço!
esse é um bom conselho mas dificilmente só falaremos coisas edificantes. Podemos ferir pessoas falando o mais belo português culto.
ExcluirÉ, também fui educada para evitar palavrões, meus pais não diziam, nunca vi.
ResponderExcluirMas... de vez em quando digo algo interessante na hora certa, isso é do
brasileiro, faz parte da nossa cultura, engolir sapo sem extravasar?
Aí é demais. Tem uns palavrões que ficam muito engraçados quando
falado na hora certa...
Uma feliz semana, Eduardo!
Abraços daqui.
Uma boa educação é muito importante e serve para a vida toda. A sua crónica levou-me à minha meninice quando nem se pensava ser possível dizer palavrões. Hoje está tudo diferente.
ResponderExcluirTudo de bom.
Um beijo.
O palavrão também nunca entrou em casa dos meus pais e na minha.
ResponderExcluirE os meus filhos nunca se serviram de tal vocabulário. E os meus netos vão pelo mesmo caminho.
É uma boa ideia explicar os significados aos filhos, nunca me lembrei do método.
Boa semana.
Um abraço.
Gostei muito da forma como abordaste um tema tão delicado com naturalidade e diálogo. Explicar em vez de apenas proibir ajuda as crianças a compreender melhor o mundo e a criar confiança para falar sobre qualquer assunto.
ResponderExcluirBeijinhos na alma 💛
Daniela Silva | Alma Leve
Olá Eduardo,
ResponderExcluirSe um português te chamasse de "paneleiro", certamente ninguém consideraria isso pejorativo ou daria importância... Mas "viado" (não o animal, o veado), é uma história completamente diferente, principalmente nos anos (1970).
No entanto, se um brasileiro entrar numa "bicha"... PIMBA! — sexo explícito entre homens; enquanto que lá na "terrinha", se um patrício fizer isso, estará entrando somente numa fila de banco, por exemplo.
Brincadeiras à parte, a verdade é que o tabu em torno dos palavrões decorre da proibição cultural e linguística de certos termos. Estas expressões estão ligadas a temas considerados sagrados, íntimos ou vulgares, como funções corporais, sexualidade e religião. O poder destas palavras deriva justamente da violação de normas sociais e, isso sempre será assim, visto que muitas pessoas ainda utilizam palavrões como uma forma de comunicação primitiva e visceral... e não casual.
Ou seja, enquanto a linguagem comum depende do córtex cerebral para o planejamento e a lógica, os palavrões são processados de maneira mais emocional; isso explica por que eles "escapam" tão facilmente em momentos de dor, surpresa ou raiva.
Um abraço!!!
_ °_
PS:
Vi o teu comentário no canal ®ĐÖЦG ẞLÖG no YouTube... VALEU!!!
Bem legal a crônica. Não tenho esse costume de xingar e fico perplexo quando vejo pessoas que não tem esse costume, xingando. Adorei sua crônica. Muito bem escrita!
ResponderExcluirBoa semana!
O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!
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Até mais, Emerson Garcia
Creio que este artigo pode ter sido inspirado ao assistir um jogo de futebol. Ontem coincidiu com o do Brasil versus Japão, mas eu vi tanta gente "puritana" soltando os maiores impropérios a plenos pulmões que eu jamais poderia imaginar....kkkkk
ResponderExcluirTambém fui educada de uma forma rigorosa por meus pais e palavrões nunca foram falados e aceitos dentro e fora de casa. Você está sabendo repassar belos ensinamentos para seu filho de uma forma leve, parabéns Edu!!
Boa semana!!
Também cresci em um lar evangélico e ninguém lá em casa falava palavrão.
ResponderExcluirHoje em dia até falo algum, em momentos realmente ruins,
tipo bater o dedinho na quina de um móvel. Ai! Um abraço!
Cara, você é um pedagogo, mas daqueles que, como um velho marinheiro, leva o barco devagar. Bem educado, aprendeu que a falta de diálogo pode provocar impactos como um terremoto e está cuidando muito bem do herdeiro. Embora se possa dizer amanhã que na herança dele faltaram os palavrões (risos). 'Autonomia pelo conhecimento' é um nome pomposo para descrever o belo caminho que você dá ao seu filho. Vá em frente...
ResponderExcluirUm grande abraço,
Ficou bem comum o palavrão e a cada dia se repetindo até nas brincadeiras ou nos momentos de euforia. Quando não _na brigas o palavrão sempre entra para reforçar o que se quer dizer. Tem alguns que diz tudo rs .Não gosto e muito raramente quando me irrito uso um 'que merda' hein? !! rsrs e a família também não tem o hábito ... somos educados para evitar esse modelo que xinga por tudo e por qualquer razao. E você ,sempre didático Edu . Muito boa crônica .
ResponderExcluirDeixando um abraço grande . e que domingo o Vini faça valer o seu palavrão. ! Beijinhos e boa semana.
Oi, Eduardo! Bom dia! Pessoalmente não tenho vergonha nem me sinto inferior a ninguém por usar palavrões. Quando estou irritado ou tendo um dia péssimo, não hesito em soltá-los, sem medo de ser mal interpretado. E como não tenho filhos nem convivo com uma mulher diariamente, para mim isso nunca foi um problema. Não vou me privar de me expressar quando preciso. Claro, não uso palavrões o tempo todo, mas também não sou um santo que não pode soltar uma palavra mais forte. Você faz bem, pelo menos na teoria, em ensinar seu filho a não usar palavrões. Seria até estranho, se você por ventura não o fizesse com o seu filho, né? Um abraço!
ResponderExcluirMuito bom. Acho que os pais devem ter abertura para explicar com simplicidade e clareza tudo o que os filhos perguntam, sob pena de ser (mal)educados por quem os machuque, pois a educação começa em casa.
ResponderExcluirAbraços.
Olá Eduardo,
ResponderExcluirPassei para ver as novidades.
Aproveito para registar o meu desagrado com o comportamento do Neymar aquando do penalti contra a Noruega. Sei que irá uma grande tristeza por aí, mas é preciso saber perder, mesmo sendo melhor. Mas o grande erro do Brasil foi escolher muitos jogadores que já não têm a vivacidade de outrora, deixando de fora mais novos com muita mais capacidade física (a seleção portuguesa também sofre do mesmo mal e o mais provável é que seja cilindrada pela Espanha...).
Boa semana caro amigo.
Um abraço.