terça-feira, 12 de maio de 2026

Saí de Lá




      Me parou no meio do calçadão. Trazia nas mãos um caixa larga com vários Chokitos e Prestígios. Levantou a mão com um sorriso largo na cara me oferecendo um comprimento.


- E aí, parça, tudo bem?

- ...?

- Lembra de mim não, parça? Tiaguinho.

- Estou bem mas...não lembro de você.

- Jura? Que isso, parça. Tu tá lá ainda? Eu saí de lá.

- Saiu?

- Pois é, não tava legal não. Agora tô aqui vendendo os melhores chocolates do mercado: Chokito e Prestígio. 

- Sei...então, você era de qual setor lá?

- Mas tu é mesmo esquecido, parça! Eu era arquivista!

- Arquivista...mas o arquivista lá é o Tenório há uns dez anos...

- Parça, eu era ajudante do Tenório, grande Tenório. E como vai  o Tenório?

- Vai bem, tá prestes a se aposentar agora.

- Sei, sei, que bom, que bom, mas parça...

- É que eu não lembro mesmo de você lá. Devo tá esquecido mesmo.

- Saí de lá e agora tô cá...vendendo essas iguarias chocolatóricas! São três por dez, vai dar uma moral aí?

- Mas tu saiu de lá mesmo? Parece que agora tô lembrando de você!

- Pois é, te disse: saí de lá. 

- Aqui tá melhor?

- Bem melhor, parça. Faço meu horário. Vendo meus seletos chocolates e vou pra casa. Sem stress.

- Pois é.

- Vai querer quantos?

- Ah, meu filho adora Chokito. Vou levar seis.

- Beleza, dá vintão.

- Tá aí.

- Obrigado, parça, vai com Deus.

- Vê se passa lá para ver o pessoal.

- Passo, com certeza. 



22 comentários:

  1. Eduardo,

    teu texto me fez sorrir e pensar ao mesmo tempo. Há uma inteligência tão viva nesse diálogo aparentemente simples, que a gente termina a leitura sentindo que cruzou de verdade com aqueles dois personagens no meio do calçadão. Gostei muito da naturalidade da conversa. Parece daquelas cenas comuns da vida que passam despercebidas para quase todo mundo, mas que, nas mãos de quem sabe observar, viram literatura. E tu tens esse olhar. Enquanto eu lia, fiquei pensando em quantas pessoas saem dos lugares sem deixar grandes marcas aparentes, mas seguem reinventando a própria vida do jeito que conseguem. O Tiaguinho tem algo de engraçado, insistente e ao mesmo tempo racional. Ele quer vender chocolate, claro, mas talvez queira também ser reconhecido, lembrado, validado por alguém do passado.
    E achei bonito como o texto vai revelando isso sem dramatizar nada. Apenas deixando a conversa acontecer. Quase ouvi o barulho do calçadão, o movimento das pessoas e aquele jeito brasileiro de transformar qualquer encontro em uma mistura de humor, saudade e sobrevivência. Teu texto tem esse encanto das coisas simples que escondem muito mais do que parecem mostrar.
    E eu amei a cara nova do blog!

    Abraço
    Fernanda

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  2. A questão é que o Tiaguinho nunca "trabalhou lá" era só uma estratégia de venda. Tão boa que o Parça acabou se convencendo que lembrava dele..

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  3. Oi Edu, agora você me trouxe toda a infância de volta com os meus dois chocolates preferidos de todos os tempos, além do Serenata de Amor da antiga Garoto. Entretanto, venho fazer um pequeno protesto, pois o Chokito não está como há 30 anos não viu? Ele perdeu um pouco da crocância - Lembro-me do slogan até hoje - (leite condensado caramelizado, com flocos crocantes, coberto com o delicioso chocolate Nestlé) rsrs e o Prestígio, valha-me Deus, está uma "doçura" que chega a dar arrepios rsrs

    Bem, voltando ao tema, esse diálogo está ótimo de ler e reler, muito leve, em uma conversa sincera do Tiaguinho que preferiu sair da vida de CLT para criar o seu próprio negócio. E creio que está se saindo muito bem, pois ele tem a tática de insistir, que só os bons vendedores conseguem e no final ele triunfou, vendendo 6 Chokitos, o que é sensacional pois o protagonista do diálogo não tinha a menor intenção de comprá-los a princípio!!!
    Adorei!!
    Tenha uma semana maravilhosa!!

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    1. Verdade, meus preferidos também já não são tão bons como antes.

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  4. Esse Tiaguinho eraq danado de sabido,rs...
    Tinha uma boa "lábia" pra conquistar o freguês,rs Tá cheio deles nas esquinas da vida!
    abração,chica

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  5. Olá, Edu!
    O pessoal tem lábia... sabe convencer.
    Tenha dias abençoados!
    Abraços fraternos

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  6. "Saí de lá", maravilhosa crônica. A verdade é que "ele" continua "lá", utilizando sua engenharia social ou o seu Manual de Sobrevivência, pois sem ela não atinge o seu objetivo. Começa com o cumprimento caloroso que desarma e prende o incauto, risos, as perguntas vagas permeiam o encontro e, de repente, a “armadilha” e saímos com uma sacola para deleite dos que nos aguardam em casa.
    O importante é que o texto tem o sabor do Chokito e revela Prestígio dentro e fora do seu texto.
    Agrada ao paladar mais exigente e entretém com leveza e graça o leitor que se tornou um "parça" da suas crônicas.
    Um abraço,

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  7. Edu,
    Muito comum esses encontros
    e esses diálogos onde a procura
    da lembrança foge como
    o diabo da cruz.
    Me lembrou uma situação minha.
    Já morava em Pasargada e moravam
    no bairro anterior ao de agora.
    Vinhamos da praia eu e o marido,
    numa parada do ônibus, meu marido
    cumprimentou um jovem e um adulto.
    Na cara dura ele olhou pra mim e disse:
    Não lembra dele Vc tem que lembrar!
    Isso na frente dos dois. Eu, disse, -ah sim!
    Como estão? Até logo. E já fui saindo.
    Meu esposo indignado, veio forçadamente
    e me inquiriu: Como Vc não lembra do seu
    Filho de Leite? Não acredito!
    Caramba, ele queria que eu de supetão
    lembrasse de uma pessoa de 22 anos que
    pela mãe dele irmã da minha vizinha
    que nao morava na mesma rua que eu,
    e por ter feito plastica, não tinha como amamentar
    e eu tinha tido meu filho caçula na mesma
    época que ela teve o dela, então eles traziam
    a bomba e o recipiente e por uns meses eu
    enviava o leite pra ele. Mas eles nem conviviam
    conosco e 22 anos depois eles se transferiram para
    o Pasargada/ES e vieram morar no mesmo bairro que nós.
    Fiquei brava com meu esposo INDIGNADÍSSIMO
    me forçando a Lembrar do meu Filho de leite que nem no colo
    eu segurei! aFFFF.
    Adorei sua publicação.
    Bjins
    CatiahôAlc.

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    1. caso interessante, Catiahô. No caso da crônica, o vendedor nunca tinha trabalhado "lá", foi apenas um modo de começar a conversa para vender seus chocolates.

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  8. Já dei muita trela para esses Thiaguinhos. Hoje em dia, nao mais. Cuidado, eles nunca estão realmente sozinhos. Seja gentil.

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  9. Absurdo, mas a gente tem medo de ajudar estranhos, e tem que ter. Então quer dizer que o chokito e o prestígio não derretem no calor, não sabia, obrigado. Grata pela visita ao blog. Um abraço, Yayá.

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  10. Muito bom, Edu
    E quem resiste a um Chokito e um Prestígio?
    Nem sempre os Tiaguinhos são confiáveis mas nem sempre também não o são ...
    Sim ,inteligentes são e confesso que levaria uns tantos pra casa.
    Como de hábito suas crônicas diverte, são leves (nem sempre) rs e eu amo !

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  11. Não compro nada desse pessoal! Sei lá onde guardou! Mas me deu a ideia de fazer um post real misturando a sua história com o que disse a Catiah^. Mas são histórias reais mesmo, graças a uma memória visual ótima e uma péssima para guardar nomes.

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  12. Olá Edu,

    Ficamos mesmo atônitos com as peças que a memória nos prega.Quantas vezes algo parecido me aconteceu e de fato, eu me lembrava da fisionomia, mas não das circunstâncias.
    À primeira vista, parece mesmo, ser um caso corriqueiro de coincidência cotidiana, mas, nos tempos atuais ( no Rio de Janeiro), vá saber!!!
    Todo cuidado é pouco!
    Encerro, com votos de que o Tiaguinho tenha feito a melhor escolha para si.

    Um ótimo dia pra vc!

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  13. Parça Dudualdo Abú, essa conversa que pareceu um pequeno golpe para te comover e comprar as delicias chocolatianas.
    Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

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  14. Boa tarde:- Por esse mundo fora existem tantos Tiaguinhos ( trafulhas )
    .
    Saudações poéticas
    .
    “” Feliz momento ““
    .

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  15. Adorei!
    Tua criatividade é fantástica! Humor e palavras fluindo como água corrente que nos prende ao texto não querendo que acabe.
    Parabéns, Edu.
    5*****.
    Beijinho e ótima semana .😘

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  16. Mentira contada várias vezes, é fato, acaba virando verdade.
    Abraço.

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  17. Tem gente que é capaz de dar nó em pingo d´água. É o caso do Tiaguinho. Enrola e inventa um monte de história pra conseguir o que quer sem fazer muito esforço.

    Claro que ele nunca trabalhou lá. Fez a venda de 20 reais e ainda deixou o outro pensando como é que não se lembrava do vendedor de chocolate. Não parece, mas eu acho que são pessoas perigosas.

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  18. Um conto que deve acontecer com frequência na nossa realidade.

    Boa semana!

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