Estou lendo o livro "A Bíblia do Escritor" de Alexandre Lobão. No prefácio, o escritor Felipe Pena pondera sobre os modos de escrever e a hermeticidade de alguns pretensos escritores "de elite" que determinam o que é ou não é literatura. Achei interessante sua abordagem sobre o assunto e resolvi publicar aqui.
"Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura"
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"Os autores não estão preocupados com os leitores, mas apenas com a satisfação da vaidade intelectual. Escrevem para si mesmos e para um ínfimo público letrado e pretensamente erudito, baseando as narrativas em jogos de linguagem que têm como único objetivo demonstrar uma suposta genialidade pessoal.
Acreditam que são a reencarnação de James Joyce e fazem parte de uma estirpe iluminada. Por isso, consideram um desrespeito ao próprio currículo elaborar enredos ágeis, escritos com simplicidade e fluência. E depois reclamam que não são lidos. Não são lidos porque são chatos, herméticos e bestas.
Usei as palavras acima em uma entrevista concedida a um jornal carioca no ano passado, quando fui injusto e deselegante com diversos autores brasileiros de ficção que não se encaixam no perfil descrito. Minha generalização, no entanto, foi retórica, estratégica. Tinha como objetivo levantar a discussão sobre a formação de um público leitor no país e contestar o predomínio de uma parte da crítica acadêmica que ainda vê na anacrônica experimentação e em conceitos ligados aos formalistas russos do início do século passado os valores supremos do texto literário.
Como disse naquela entrevista, são os doutores universitários (e me incluo na lista) que prejudicam a formação de um público leitor no país. A linguagem da academia é produzida como estratégia de poder. Quanto menos compreendidos, mais nossos brilhantes professores se eternizam em suas cátedras de mogno, sem o controle da sociedade. E isso se reflete na literatura.
Em recente polêmica envolvendo uma crítica da professora Beatriz Resende ao seu último livro, o escritor João Ximenes Braga desabafou: “Críticos de cinema e música entendem que há espectadores e ouvintes com desejos diversificados. Chegamos aos livros e, danou-se, os acadêmicos e certos críticos que sempre falam em ‘a literatura’ com artigo definido, como se houvesse um único cânone a ser seguido, não fazem cerimônia em dizer que o leitor que não os obedece é burro ou pouco exigente.”
É fácil perceber que grande parte da nossa ficção é elitista e pretensiosa. Os autores (estou generalizando de propósito novamente) não se preocupam com o principal, que é contar uma história. Alguns livros nem história têm, limitando-se ao já mencionado experimentalismo linguístico. Isso não significa, no entanto, que não sejam boa literatura. Pelo contrário, alguns são obras de arte de relevante valor. Só não são acessíveis.
Eu, por exemplo, leio esses autores, mas tenho doutorado em Literatura. Aliás, isso é parte do problema: a academia e uma elite leitora convencionaram que só tem valor aquilo que está na elipse, que força o leitor a encontrar sentido onde poucos conseguem enxergar. Por essa premissa, o que é fácil de ler não tem valor literário. E quem discorda dela é taxado de superficial.
Voltemos, então, à injustiça que cometi. Quero citar alguns autores que defendem o retorno ao compromisso narrativo e não se encaixam no perfil de herméticos. Um deles, o jovem Rodrigo Lacerda, deixou isso claro em entrevista recente a este jornal: “busco uma história bem contada, isto é, aquela que constrói um fluxo envolvente e cujas situações transmitem eficientemente os dramas dos personagens, estabelecendo contato emocional com o leitor.”
A definição de Lacerda é primorosa e, como ele, há diversos escritores brasileiros que enveredam pela mesma estratégia. Fernando Molica, Adriana Lisboa, Tatiana Salem Lévy, Homero Senna, Edney Silvestre, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Livia Garcia-Roza, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues estão entre eles. E me perdoem todos aqueles que não mencionei. Concordo que cada um escreva como pode, como diz o André De Leones. Mas alguns podem mais do que os outros.
O que proponho não desvalorizar os autores que seguem a verve intelectual da crítica especializada, muito menos desarticular seus grupos de influência que se eternizam em elogios mútuos (e, às vezes, justos) pelos cadernos de cultura do país. O que desejo é apenas abrir espaço para um outro tipo de literatura, cuja proposta de retorno ao compromisso narrativo inclua mais um conceito demonizado pela crítica: o entretenimento.
Acredito que precisamos de livros de ficção que sejam acessíveis a uma parcela maior da população. E isso não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. Escrever fácil é muito difícil, já ensinava o ululante Nélson Rodrigues"
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Felipe Pena é jornalista, psicólogo, romancista e professor da Universidade Federal Fluminense. Autor de 12 livros (entre eles os romances que compõem a Trilogia do Campus) e dezenas de artigos científicos publicados no Brasil e no exterior, é Doutor em Literatura pela PUC-Rio, com pós-doutorado em semiologia da imagem pela Université de Paris/Sorbonne III. Escreve crônicas pra o Jornal do Brasil, coordena o GP de Teoria do Jornalismo da Intercom e ministra oficina de crônicas na Estação das Letras, no Rio de Janeiro.Foi sub-reitor da UNESA e comentarista da TVEBrasil.
Não conheço esse livro que estás lendo, mas originou uma boa crônica!
ResponderExcluirPara mim, se autores pretendem apenas suas vaidades satisfazer, escrevendo de forma que o leitor não gosta, ele é quem se "rala"...Eu, por exemplo, nas primeiras páginas, já tiro minha conclusao e deu...Fecho o livro, adeus,rs...
Bem diferente é quando gosto!
abraços, lindo domingo, chica
Não conheço o livro.
ResponderExcluirTem uns Blogs de leitura que sigo de olhos fechados.
Tatiana Feltrin é um deles.
Não quero mais ler livros que não tenha na minha Biblioteca.
Já tenho muitos e poucos não lidos.
Sim, faço musculação todos os dias.
Um dia faço braços e no outro dia faço pernas.
Então sigo a regra do repouso.
Alongamento faço todos os dias. É necessário.
Abraço,
Amigo Edu,
ResponderExcluirAcredito exatamente no contrário... por total falta de vaidade, um escritor, seja ele intelectual ou não, a princípio escreve para si mesmo, pois, antes de publicar o que escreveu, antes da “fera solta”, dirigida ao leitor, os escritos pertencem à solidão dos manuscritos, da folha branca na máquina de escrever, do cursor do laptop e de outros recursos tecnológicos e telas.
NÃO... "Boa parte da literatura brasileira contemporânea presta um desserviço à leitura" - precisamos ler de tudo para poder formar uma opinião sobre se a literatura é de boa qualidade ou não.
Por ler muito, infelizmente, aceito de forma condensada esta opinião do professor de Jornalismo Felipe Pena de Oliveira, de que não anda existindo boa literatura.
Um abraço e boa leitura.
Interessante o seu conto. Obrigado por compartilhar.
ResponderExcluirBoa semana!
O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!
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Até mais, Emerson Garcia
não é um conto...
ExcluirOla Edu,
ResponderExcluirEstava com problemas em comentar pois não conseguia enviar o comentário.
Ufaa...agora parece que voltou ao normal, mas li todos os seus textos
e como sempre muto bons.
Feliz noite
Considero uma boa crônica do Felipe pena . Livro quando é bom , já se percebbe nos primiros capítulos . SE não fez seu estilo , fecha-se e busca outro título , ou não . Parece que nos dias de hoje , não se tem grande apego à leitura . As redes sociais prejudicam um pouco esse gosto pela literatura. Pelo menos é o que tenho observado na geração de nossos dias . É preciso muita inspiração prá chegar até a geração atual . Hoje o que eles querem é "farmar aura" ( rsss....) E quando chega no estibular poucos conseguem dar conta...
ResponderExcluirhttps://kantinhodafe.blogspot.com
Como bem disse a Chica há autores e autores e se não gostamos logo na primeira leitura deixamos fechados na estante ou colocamos nos escaninhos de leituras, tipo doação. Já deixei alguns rs
ResponderExcluirHoje leio muito mais na internet mas adoro um livro com um bom enredo e um texto limpo e claro, não leio auto ajuda, gosto de biografias , crônicas e histórias bem contadas. Tenho bons livros recomendados, adoro quando os amigos sugerem ,porque sei que vou gostar. Mas verdade que tenho lido pouco.
Obrigada pelo texto interessante , também gostei de ler. Meu abraço de boa noite.
Oi Edu, é importante que você traga para todos nós, as vertentes modernas da literatura brasileira e como andam os acadêmicos nesta área. Aliás preciso confessar que estou lendo poucos autores brasileiros e as ponderações de Alexandre Lobão chamaram-me muito a atenção.
ResponderExcluirA escrita tem que ser para a pessoa e principalmente para o seu leitor e captar a emoção , transferir conhecimentos, induzir a reflexão... De que adianta uma escrita rebuscada feita para poucos ou para alimentar egos não é mesmo...
Grata por compartilhar conhecimentos!!
Maravilhosa semana!!!
Oi, Eduardo! Bom dia! É ótimo que existam livros para todos os gostos, não é mesmo? Tem gente que não suporta escritores com uma linguagem rebuscada, enquanto outros rejeitam qualquer texto de autores incríveis só porque escrevem de forma mais simples, muitas vezes refletindo as ricas diferenças regionais do nosso vasto país. Existe um preconceito enorme na nossa própria literatura, vindo muitas vezes de leitores que, na verdade, leem pouco e só criticam o que não gostam. Na minha visão, o essencial é que mais pessoas leiam para ampliar sua consciência e, assim, tornar o Brasil um lugar mais habitável. Um abraço!
ResponderExcluirOi, Edu, hoje foi comemorado aqui os 120 aninhos que teria o nosso poeta Mário Quintana. Esse era fora de série, poeta das coisas simples, de escrita simples que tocava todos os corações com sua poesia autêntica, sem rebuscamentos, ele sabia que não precisava disso para atingir muita gente. E como atingiu!
ResponderExcluirOuvi uma entrevista dele hoje, um ser admirável.
E como ele cito também Drummond e tantos outros que procuro.
Então o que acabo de ler, concordo sim.
Chegar nos outros, só tem uma maneira, um texto bem escrito, no capricho ou um autêntico poema cativante que de alguma maneira nos toca, sem rebuscamentos cansativos. Para explicar ou falar de coisas da vida, é simples, direto e sem frufrus. A vida como ela é.
Escolho meus livros, segundo meu gosto e leio sobre o autor para ver "a que veio"...
É isso, Edu, um show de postagem, gostei bastante.
Abraço gaúcho, daqui dos pampas.
Boa tarde Edu,
ResponderExcluirFelipe Pena tem toda a razão. Com o decorrer do tempo também tenho notado essa vaidade intelectual que torna os escritores chatos.
Quando um livro não me capta logo no início já sei que vai ser aborrecido.
Atualmente é raro o livro que me prende, mas quando acontece
leio-o em dois ou três dias.
Beijinhos e um bom fim de semana.
Emília
Olá grande Eduardo! Mais uma reflexão sua que gostei muito. Concordo que a literatura deve ser uma ponte para o leitor e não um muro de vaidade intelectual... Gosto de algo escrito de forma simples e cativante. A grande maioria das vezes esse é o verdadeiro desafio e a maior prova de talento! Muito bom. Forte abraço para si! 🤗
ResponderExcluirEscrever é uma tarefa difícil e se optarmos pela simplicidade mais difícil se torna. Muitos escritores complicam a sua forma de escrever, o que afasta os leitores. Gostei desta excelente reflexão.
ResponderExcluirTudo de bom.
Um beijo.
Deixe-me avisar que não estou te criticando. O que vou escrever é uma reflexão não diretamente a você, mas serve para todo mundo, inclusive para mim e para você.
ResponderExcluirVamos lá...
Esses tipos de livros não servem para nada, Eduardo. Não entendo, as pessoas às vezes criticam leituras eróticas, livros fubecas porque são isto e aquilo, daí vejo o ser lendo um livro que não sai do nada nem vai a lugar nenhum. Esses tipos de livros aí não querem nada com nada. Falam obviedades do tipo "se você passar na rua cheia de bandidos, algo de ruim pode acontecer, mas se tiver pensamento positivo, pode sair ileso." Dããã...
Na prática, cada um vai continuar lendo o que bem quiser. Sempre haverá quem se desestimule também, porque a vida não é fácil. Para você se dedicar a ler um livro, meu rapaz, precisa querer muito. Porque a sua vida fica concentrada ali. Precisa gostar de meter a cara no texto, porque não dá para fazer outra coisa a não ser ficar com a cara enfiada nas páginas da história.
Leitura não é mágica. Se a pessoa não gosta, não adianta.
Um abraço, Eduardo.
Olá, Eduardo
ResponderExcluirHouve tempo em que gostava de ler. livros pesados e concentrava-me naquilo de modo a tentar compreender o que o autor quereria dizer.
Mas hoje deixei-me disso. Uma boa história, com princípio, meio e fim agrada-me. Já não leio tanto como antigamente...
Abraço
Olinda