A DECLARAÇÃO do Imposto de Renda (que eu sou descontado na fonte mesmo não sendo muito e recebendo parte de volta, mesmo sem ter renda e sim, salário) já foi bem complicada, mas hoje em dia pra quem não é milionário (tem mais de um milhão na conta, bens, investimentos, etc) até que está bem simplificada. Fica até pré preenchida no aplicativo de um ano para o outro.
Em 1984, Drummond, nosso poeta maior (mas também hábil cronista) escreveu sobre o dito IR com um toque todo especial.
Há escritores que nos ajudam a entender o mundo. Outros, como Carlos Drummond de Andrade, fazem algo mais sutil — e talvez mais difícil: nos ensinam a percebê-lo. (a frase não é minha mas como discordar?)
Sr. DIRETOR do Imposto de Renda:
O senhor me perdoe se venho molestá-lo. Não é consulta: é caso de consciência: Considerando o formulário para declaração de imposto de renda algo assimilável aos textos em caracteres cuneiformes, sempre me abstive religiosamente de preenchê-lo. Apenas dato e assino, entregando-o, imaculado, a um funcionário benévolo, a quem solicito: “Bote aí o que quiser”. Ele me encara, vê que não sou nenhum tubarão, rabisca uns números razoáveis, faz umas contas, conclui: “É tanto”. Pago, e vivemos in love, o Fisco e eu. Mas este ano ocorreu-me uma dúvida, a primeira até hoje em matéria de renda e de imposto devido. O bom funcionário não soube resolvê-la, ninguém na repartição soube.
Minha dúvida, meu problema, Sr. Diretor, consiste na desconfiança de que sou, tenho sido a vida inteira um sonegador do Imposto de Renda. Involuntário, inconsciente, mas de qualquer forma sonegador. Posso alegar em minha defesa muita coisa: a legislação, embora profusa e até florestal, é omissa ou não explícita; os itens das diferentes cédulas não preveem o caso; o órgão fiscalizador jamais cogitou isso; todo mundo está nas mesmas condições que eu, e ninguém se acusa ou reclama contra si mesmo. Contudo, não me conformo, e venho expor-lhe lealmente as minhas rendas ocultas.
A lei manda cobrar imposto a quem tenha renda igual ou superior a determinada importância; parece claro que só se tributam rendimentos em dinheiro. A seguir, entretanto, a mesma lei declara: “São também contribuintes as pessoas físicas que recebem rendimentos de bens de que tenham a posse, como se lhes pertencessem.” E aqui me vejo enquadrado e faltoso. Tenho a posse de inúmeros bens que não me pertencem e que desfruto copiosamente. Eles me rendem o máximo, e nunca fiz constar de minha declaração tais rendimentos.
Esses bens são: o sol, para começar do alto (só a temporada de praia, neste verão que acabou, foi uma renda fabulosa); a lua, que vista do terraço ou da calçada da Avenida Atlântica, diante do mar, me rendeu milhões de cruzeiros-sonho; as árvores do Passeio Público e do Campo de Santana, que alguém se esqueceu de cortar, a montanha, as crianças brincando no play ground ou a caminho da escola; as mangas, os chocolates comidos contra prescrição médica, um ou outro uísque sorvido com amigos, na calma calmíssima, os versos de três poetas, um francês, um português e um brasileiro; certos prazeres como andar por andar, ver figura em edições de arte, conversar sem sentido e sem cálculo; um filmezinho como Le petit poisson rouge, em que um gato salva o peixe para ser gentil com o canário, indicando um caminho aos senhores da guerra fria; e isso e aquilo e tudo mais de alta rentabilidade… não em espécie.
Estes os meus verdadeiros rendimentos, senhor, salários e dividendos não computados na declaração. Agora estou confortado porque confessei, invente depressa uma rubrica para incluir esses lucros e taxe-me sem piedade. Multe, se for o caso; pagarei feliz. Atenciosas saudações.
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Carlos Drummond de Andrade em Cadeira de balanço: crônica, 15. ed, Rio de Janeiro.
J. Olympio, 1984. pp 35-36.
Essa época é só procurando recibos, tantos papéis espalhados.
ResponderExcluirAdorei o texto de Drummond!
Muito legal sempre!
abração, ótimo fds! chica
Querido Eduardo,
ResponderExcluirteu texto começa falando de números, formulários e declarações… mas termina falando daquilo que realmente importa e isso não se mede em cifra alguma.
Que delicadeza a tua escolha de trazer Carlos Drummond de Andrade. Ele consegue fazer o que poucos fazem: transformar obrigação em poesia, e burocracia em consciência. E você soube conduzir isso com leveza, quase como quem nos pega pela mão e diz: “olha, há outras riquezas que você talvez esteja esquecendo de declarar”.😜
Fiquei pensando aqui… se a gente realmente tivesse que declarar tudo isso o sol no rosto, as conversas sem pressa, os pequenos prazeres que salvam os dias talvez a vida fosse menos corrida e mais percebida.
Teu texto não fala só de imposto de renda.
Fala de um outro tipo de prestação de contas: aquela silenciosa, que a gente faz com a própria existência.
E essa, essa não aceita omissão.
Obrigada por lembrar disso com tanta sensibilidade.
Hoje tirei o gesso mais indo com calma ☺️
Fernanda
😘
Transportei-me lá para asa ruas de Belo Horizonte ao lado da estátua de Drumond. Nunca imaginei que um texto dele sobre IR. Deveria ter vindo ao teu blog mais cedo, antes de ir ter com o moço da rua ao lado que, num pix, faz-me o trabalho do benévolo funcionário.
ResponderExcluirSempre incômodo, botando medo o leão. Mas aqui, um deleite com direito a lua, mar, sol, árvores! Obrigada por isso!
Abraço
ana paula
Olá, Eduardo
ResponderExcluirNesta altura do ano estamos a braços com o IRS.
Nem de propósito, você nos traz esse texto maravilhoso
de Drummond de Andrade, que transforma em poesia
os elementos que nos apaziguam, que a natureza nos oferece
e que, naturalmente, não são taxados. Sabe que já houve uma
altura que se falou em taxar os prédios virados para o
Sol, as varandas que recebiam a claridade, os quintais com
os varais com a roupa branca? Não sei se foi antes ou depois
da pandemia, mas parece que o autor da ideia não teve sorte.
Mas nada nos garante que um dia destes não reaparece.
Tenha um bom fim-de-semana.
Abraço
Olinda
Maravilhoso texto! Tem coisas na vida que ninguém pode nos cobrar, é de graça para todos, um presente da vida que nos torna mais felizes todos os dias! Bom fim de semana!
ResponderExcluir(o゜▽゜)o☆
Adorei o texto do Drummond. Me fez lembrar das palavras de um chefe indígena destinadas ao presidente dos EUA ("Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra?...)
ResponderExcluirDudualdo Bú, que legal esse texto hein!!
ResponderExcluirO cara era diferenciado mesmo.
É isso que eu falo, quando a gente fala que é escritor, kkkkkkkkkkk.
Temos que aprender muito.
IR eu sempre fiz, não sei bem como, e sempre deu certo.
Já estou na fila de restituição esse ano.
Kkkkkkkkkkkkkkkkk.
Sou um Drumond do imposto de renda!!!
Oi, Eduardo. Gostei muito do texto do Drummond e concordo muito com ele sobre esses bens dos quais desfrutamos, mas não possuímos. Obviamente nunca havia parado para pensar neles dessa forma, mas é assim que a literatura funciona, e por isso amo tanto a arte das palavras.
ResponderExcluirTenha uma boa semana!
Até breve;
Helaina (Escritora||Blogueira)
https://hipercriativa.blogspot.com (Livros, filmes e séries)
https://universo-invisivel.blogspot.com (Contos, crônicas e afins)
Eu já fiz minha declaração deste ano. Não é tão difícil, é meio trabalhoso.
ResponderExcluirNão entendo muito as pessoas que pagam para fazer hoje em dia.
No passado devia ser bem complicado preencher no papel e fazer contas com calculadoras. Mas graças a Deus não sou desta época. Nem declaração em disquete eu peguei.
É só baixar o programa e tirar algumas dúvidas no google.
Mas eu cago de medo de mandar alguma coisa errado e ser chamado lá para ser escorraçado pelo leão como se eu fosse um bandido.
Drummond estava errado. Os bens que importam são dinheiro e coisas que valem dinheiro. Coisas importantes não valem nada... Até que as percamos...
O sentido de humor do Drummond é fantástico.
ResponderExcluirEm Portugal, há já alguns anos, a declaração anual é automática, é só clicar em OK. Mas isto acontece porque o fisco já sabe tudo de todos. E também sabe que todos, como o Drummond, que “São também contribuintes as pessoas físicas que recebem rendimentos de bens de que tenham a posse, como se lhes pertencessem.” A não ser que não apanhem sol, etc., etc.
Excelente crónica, gostei de ler.
Boa semana caro amigo Eduardo.
Um abraço.
Esse post me fez lembrar que tenho que declarar o meu. Obrigado pela lembrança.
ResponderExcluirBoa semana!
O JOVEM JORNALISTA está no ar com muitos posts e novidades! Não deixe de conferir!
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Até mais, Emerson Garcia
Por aqui também está na altura de declarar os impostos!
ResponderExcluirAproveito para desejar uma boa semana!
Bjxxx,
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Oi, Edu, que crônica maravilhosa do Drummond! Fazer a Declaração do Imposto de Renda... quem gosta?
ResponderExcluirTodos os anos escuto só reclamações, vizinhos, parentes, amigos... que coisa, né?
As criaturas fazem o IR há décadas e sempre a reclamação, isso que é humor infinito!
E a nossa resposta é sempre a mesma: "pois é, um saco isso!"
🤔😅😄 Show de postagem !
Esse negócio de termos o sol, a lua etc... precisam ser contabilizados, estamos fraudando a Nação! 🤔
Bravo, você trouxe uma ótima partilha.
Abraços, uma feliz semana!
Que texto maravilhoso do Carlos Drummond, chega a dar um quentinho no coração ler palavras tão vívidas e aconchegantes, pois eu jamais tinha pensado na hipótese dos bens que usufruímos e nunca declaramos: o sol, a lua, a brisa, as árvores...Lindo tudo isso Edu!!
ResponderExcluirÉ para constrastar com a parte cinzenta do verdadeiro imposto, que todos os anos não nos dá trégua. Eu estava preparando os papéis desde o ano passado e assim que chegou o tempo da declaração, fiz o da família inteira...Fiquei nervosa ao extremo e espero que tenha feito corretamente e que ninguém caia na malha fina...rsrs
Obrigada amigo, precisamos de levezas até na hora de declarar o imposto...
Maravilhosa semana!! :))))
Edu,
ResponderExcluirÉ isso!
Gente antenada é outra coisa.
O Poeta Drummon e Você
juntos em mais esse assunto
que com poesia ica
menos tenso.
Bjins de eficaz semana.
CatiahôAlc.
Olá Edu, ótimo texto, realmente Drummond conseguia colocar em palavras o que muitas pessoas quem expressar, abraços
ResponderExcluirCaro Eduardo, esse tal de Drumond, nosso tão querido escritor, cronista como tu, me deixou sem palavras, as quais foram engolidas pela emoção do tal IR. Quase choro, pelas cobranças que ninguém pensara em cobrar um dia, não é mesmo? E você, Eduardo tão sensível e inteligentíssimo como ele, nos apresenta essa maravilha. Ah! Estou sempre a lhe falar que fazes em seu seu blog lindas mudanças. Como consegues? Parabéns pelo artigo e pelo seu blog. Tudo de bom e alegre semana para ti!
ResponderExcluirIsso é sempre uma complicação pra mim, não tem jeito.E o Drummond sempre genial.
ResponderExcluirJá entreguei o meu IRS.
ResponderExcluirAdorei o texto humorístico de Carlos Drummond.
Beijinho e ótimo dia, Edu.😘
IR sempre no nosso pé, muito bom o texto, Eduardo abraços.
ResponderExcluirOlá grande Edu! O Carlos Drummond de Andrade tinha esse dom raro de pegar no aborrecido e revelar o essencial. Ele lembra-nos muito bem que há uma contabilidade paralela (muito mais importante!). E talvez seja isso que mais incomoda... que é perceber que andamos tão ocupados a declarar números… e esquecemos de reconhecer as verdadeiras riquezas. Abraços e um bom fim de semana! 😁
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