HOJE RECEBO A VISITA DE UM CRONISTA DE VERDADE, o saudoso Luís Fernando Veríssimo, falecido em 30 de agosto de 2025. E pra arrematar, uma palhinha do que tenho publicado (na verdade mais "arquivado" no blog Insolitosz)
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Não sei quando será, mas não deve demorar. O lugar? Qualquer grande cidade brasileira. Noite. É cedo, mas não se veem carros nas ruas nem gente nas calçadas. Só o que se vê são motociclistas. Suas motocicletas têm caixas atrás, para carregar os pedidos. São entregadores. Motoboys. Teleboys. Eles se cruzam nas ruas vazias, em disparada. Como os carros não saem mais à noite, e os motociclistas não os respeitam mesmo, os faróis semafóricos não funcionam. O amarelo fica piscando a noite inteira, e nos cruzamentos a preferência é dos entregadores mais corajosos. Há várias batidas e pelo menos um morto por noite. Mas o número de motociclistas nas ruas não para de crescer. A população não sai mais de casa. Tudo é pedido pelo telefone.
Os restaurantes despediram seus garçons e trocaram por motoboys. Telegarçons. Se você quiser um jantar fino à luz de velas, com vários pratos, sobremesa e vinho, existem serviços de entrega para tudo. Um entrega os pratos finos. Outro a sobremesa. Outro os vinhos. Outro a toalha de linho, os talheres e as flores. E já há um de televelas.
Como as pessoas não saem à noite e ninguém mais vai jantar na casa de ninguém, há uma cooperativa que se prontifica a mandar os próprios teleboys como convidados a jantares finos. A Telenós. Você especifica o tipo de conversa que quer à mesa — mais ou menos intelectual, divertida, safada, política, variada etc. — e na hora marcada chegam os telecomensais, no número e com o traje que você quiser. Eles comem, conversam, elogiam os anfitriões e vão embora ou, por um adicional, limpam a cozinha. Como a sociedade passou a depender deles para tudo, é natural que comece a haver distorções criminosas no mundo da entrega em domicílio e teleboys se aproveitem do seu poder para aterrorizar a população.
Você abre a porta para o entregador de pizza com a mozarela pequena que pediu e de repente se vê acossado por um bando de dez, cada um com uma caixa de supercalabresa que você é obrigado a pagar, e ainda dar gorjeta. Não adianta você telefonar para a polícia. A polícia também não sai mais na rua. Existe um serviço de telessocorro que fornece ajuda parapolicial, mas eles não agem contra teleboys. O corporativismo da classe é forte.
Os motoboys dominam a noite e desenvolveram uma cultura própria. Têm seu folclore, seus mitos, seus heróis. Como “Fast Boy” Menezes, que entrega sorvete na mão em qualquer ponto da cidade e você não paga pela parte que derreter. Ou Jorge “Armário” Freitas, que adaptou sua moto para carregar qualquer coisa, bateu seu próprio recorde entregando um piano de cauda numa recepção improvisada — com o banquinho e o pianista — e morreu numa freada brusca, esmagado pela jacuzzi portátil que levava para uma festa gay. Não sei quando será, mas não deve demorar.
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Post scriptum: Coisas insólitas que estou publicando no https://insolitozs.blogspot.com/
Nosso presidente degustando uma paca.
O Veríssimo faz parte da minha santíssima trindade do humor: Millôr Fernandes, Veríssimo e mais alguém
ResponderExcluirEduardo,
ResponderExcluiro mais assustador no seu texto não é o exagero. É a proximidade. Você constrói uma crônica que parece humor, mas termina como profecia social. Aos poucos, estamos terceirizando a convivência, alugando presença e substituindo afeto por conveniência. O ser humano moderno já não quer sair, encontrar, esperar, conversar… quer apenas receber. E talvez a maior tragédia não seja a cidade vazia de carros, mas de vínculos. Seu texto lembra aquelas parábolas disfarçadas de ironia que fazem a gente rir primeiro e silenciar depois. Porque no fundo, enquanto os teleboys dominam as ruas, nós vamos perdendo algo muito mais grave dentro de casa: a capacidade de partilhar a vida sem intermediações.
Há uma solidão moderna escondida atrás de cada entrega rápida. Pessoas cercadas de serviços e famintas de presença. Casas abastecidas de comida e vazias de encontros. Gente que já não suporta o esforço da convivência real, porque a realidade não chega em trinta minutos numa caixa de papelão. E o detalhe mais brilhante da sua crônica é justamente este: os motoboys não viram vilões por maldade, mas porque ocuparam o espaço deixado por uma humanidade que desistiu da rua, do outro e do contato humano. Você escreveu sobre motocicletas, mas falou mesmo foi sobre ausência😉
Eduardo, é importante lembrar que nem tudo é ausência por escolha plena ou frieza. Muitas vezes as pessoas estão atarefadas, sobrecarregadas, vivendo no limite dos horários e das demandas… mas, mesmo assim, encontram um jeito de conversar. Uma mensagem no meio do dia, uma ligação apressada, um “chegou bem?”, um “lembrei de você” dito entre tarefas. 🙏🏻Pequenos gestos que desmentem a ideia de que o mundo virou apenas deserto de vínculos. Talvez o problema não seja só a falta de tempo, mas o risco de perdermos a sensibilidade de perceber esses pequenos sinais de presença. Porque ainda existe gente que, mesmo correndo, escolhe não deixar o outro no anonimato. E talvez seja exatamente aí que nosso lado racional ainda insiste em resistir.
Desculpa o exagero, mas sou inteira😘
Fernanda
Boa tarde, Edu.
ResponderExcluirSublime crónica, alusiva à vida sem tempo e ausência de afetos.
Concordo com o comentário do blogue "Aleatoriamente." Por cá ainda se convive à noite , felizmente!
No entanto, noto que a vida, perdeu o encanto que tinha no " meu tempo" ( nasci em 49). Não tarda , seremos substituídos pela IA!
Parabéns, Edu!
5*****
Beijinho e ótimo dia. 😘